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2050, uma odisseia energética

Existe uma inércia natural na transição entre modelos energéticos, ou seja, a humanidade vai levar décadas para completar a quarta transição energética. A não ser que...

Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

13 de Outubro

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Artigo 2050, uma odisseia energética

Enquanto os mandatários globais se reuniam na assembleia geral da ONU em Nova York, negacionistas e masoquistas do clima digladiavam a respeito da abordagem peculiar de um professor sueco sobre o tema das mudanças climáticas e as emissões de gases de efeito estufa (GEEs). Acometido da Síndrome de Estocolmo, este economista sugeriu que os seres humanos passassem a comer cadáveres para diminuir as emissões de GEEs e por consequência mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Vale recordar que de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças do Clima da ONU, para evitar uma provável emergência climática, as emissões liquidas de GEEs derivadas de atividades humanas teriam que chegar a zero em 2050. 

Estultices à parte, o fato é que excluindo-se alguma descoberta tecnológica disruptiva, existem poucas alternativas matadoras para a diminuição da concentração de gases causadores do efeito estufa na atmosfera. Uma delas é a utilização da energia nuclear para fins pacíficos, assunto que levantei na coluna passada e continuarei aqui.

Dr Strangelove (or How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb)

Embora minha trajetória profissional evidencie meu compromisso com fontes renováveis de energia, a ameaça de uma emergência climática me força a avaliar todas as alternativas para enfrentar o aquecimento global. Graças às mídias sociais descobri que não estou sozinho: William Henry Gates III, não só acredita que as mudanças climáticas são causadas por atividades humanas, como também aposta que a energia nuclear é uma solução matadora para resolver este problema. Os negacionistas do clima irão dizer que o programador de computadores Bill Gates não é fonte citável pois não tem diploma universitário. Resolvi pesquisar o que o seu cientista de estimação, o professor Vaclav Smil, tem a dizer sobre energia.

Segundo o professor Smil, desde o big bang a humanidade experimentou ao menos três grandes transições entre modelos energéticos: o primeiro desafio foi o controle do fogo que permitiu a queima direta de biomassa para geração de calor. A segunda transição ocorreu com o advento da agricultura que permitiu a conversão de energia solar em alimentos. A terceira transição entre modelos energéticos ocorreu durante a industrialização e com ela a utilização em larga escala dos combustíveis fosseis. No estágio atual da humanidade estamos atravessando a quarta transição energética. Com o objetivo de enfrentar o fenômeno das mudanças climáticas, vivenciamos a transição para fontes de energia com baixa emissão de GEEs. 

O que parece ser apenas um relato da história da humanidade sob a perspectiva da entalpia é, na verdade, um alerta: o principal argumento do professor Smil é que existe uma inércia natural na transição entre modelos energéticos. Efetivamente, de acordo com a IEA (Agência Internacional de Energia) combustíveis fósseis ainda são responsáveis por suprir aproximadamente 90% da energia consumida no planeta. Apesar de toda a expectativa com as fontes renováveis de eletricidade, plantas solares e eólicas representam apenas 2% da energia primária consumida globalmente. Em resumo, a humanidade pode levar muitas décadas até completar a quarta transição energética.

Eyes wide shut or The Shining?

Para concluir: a energia nuclear é tecnologia dominada, segura, competitiva em termos econômicos e apresenta fator de emissão de GEEs igual a zero na geração de eletricidade. Fechar os olhos para esta alternativa parece roteiro de filme de terror.

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Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

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