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A disputa de pênaltis e as mudanças climáticas

O retardamento do degelo das calotas polares tem tudo a ver com a possibilidade do Neymar Jr. ter batido o primeiro pênalti nas oitavas de final da Copa do Mundo do Catar entre Brasil e Croácia e acertado o gol

Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

26 de Janeiro

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Artigo A disputa de pênaltis e as mudanças climáticas

A Copa do Mundo do Catar acabou há pouco mais de um mês, mas quero aproveitar a oportunidade única para um engenheiro que aprecia futebol: traçar um paralelo entre a dinâmica na disputa de pênaltis e o fenômeno das mudanças climáticas. Nada de metáforas filosóficas que comparam o esporte bretão com as agruras da vida, subterfúgio muito utilizado por políticos e jornalistas populistas. O objetivo aqui é o de tentar ilustrar a ergodicidade observada tanto em disputas de pênaltis como nas mudanças climáticas.

A gente joga bola e não consegue ganhar

A trajetória brasileira na Copa do Catar é conhecida. Na disputa de penalidades das oitavas de final entre Brasil e Croácia, o escrete brasileiro saiu em desvantagem quando Rodrygo Júnior perdeu o primeiro pênalti e o destino da seleção foi selado quando Marquinhos, o quarto batedor brasileiro, mandou a bola na trave. A Croácia não desperdiçou nenhuma batida e perdemos por 4 a 2.

Neymar foi escalado para bater o quinto e último pênalti da série brasileira. Ocorre que em uma disputa de pênaltis, a sequência de eventos importa. A disputa não chegou à quinta penalidade e Neymar foi para o vestiário sem cobrar a sua. O futebolista outrora conhecido como Menino Ney, provavelmente o melhor batedor de pênaltis do mundo, é dono do maior índice de penalidades convertidas entre todos os atacantes da seleção brasileira atual. O aproveitamento de Neymar em pênaltis na sua carreira futebolística até a Copa do Mundo é de aproximadamente 83%. Na seleção brasileira o aproveitamento do jogador do Paris Saint-Germain (PSG) é de mais de 90% dos pênaltis batidos. É razoável assumir que Neymar dificilmente perderia o pênalti contra a Croácia.

A ergodicidade na disputa de pênaltis

Na teoria estatística, sistemas ergódigos incluem aqueles para os quais a sequência de eventos não impacta a ocorrência de eventos futuros. Sistemas não ergódigos, por outro lado, são subjugados por uma sequência de eventos. Nesse sentido, uma disputa de pênaltis é um sistema não ergódigo, uma vez que o resultado final da série de penalidades é condicionado à sequência dos pênaltis batidos. Me parece incontroverso que a probabilidade de sobrevivência para a seleção brasileira na competição aumentaria se Neymar fosse escalado para bater o quarto pênalti. Muito provavelmente ainda estaríamos vivos na disputa, mesmo que apenas por uma rodada de penalidades.

De uma maneira simplificada, o mesmo vale para os efeitos das mudanças climáticas nos ecossistemas terrestres e a emergência climática. Alguns poucos céticos questionam a razão pela qual estaríamos atacando um problema cujas eventuais consequências catastróficas somente seriam observadas no final do século.

Tais céticos desconsideram a possibilidade, mesmo que remota, de ocorrência de uma sequência de eventos climáticos capazes de comprometer irremediavelmente os ecossistemas terrestres num horizonte de prazo mais curto. É verdade que modelos científicos não conseguem reproduzir com precisão o impacto do aumento da temperatura na superfície da Terra, mas é intuitivo imaginar que, quanto mais tempo conseguirmos retardar o degelo das calotas polares, por exemplo, mais tempo a humanidade terá para buscar uma solução para o fenômeno das mudanças climáticas.

Não fazer nada e achar que vai ficar tudo bem não faz sentido. Falta combinar com os russos.

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Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

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