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ESG

6 min de leitura

A jornada ESG nas organizações

Muito mais do que ações voltadas ao meio ambiente, à governança e às questões sociais, ESG é uma questão de cultura corporativa

Christye Cantero

13 de Dezembro

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Artigo A jornada ESG nas organizações

Nos últimos anos, a adoção de boas práticas ambientais, sociais e de governança por parte das empresas tornou-se uma tendência global que chama a atenção também de investidores, conselhos de administração e da alta liderança das companhias brasileiras. Com isso, intensificaram-se as ações relacionadas à agenda ESG (Environmental, Social and Governance, na sigla em inglês) nas corporações ao redor do mundo. Segundo o Global Sustainable Investment Alliance, de 2020, mundialmente, o segmento de investimento responsável atingiu US$ 35,3 trilhões, crescimento de 15% em dois anos, o que representa 36% dos ativos financeiros totais.

Apesar da importância para os negócios, muitas companhias ainda patinam para colocar ESG não só na agenda, mas na cultura corporativa. No dia 8 de novembro, durante o Fórum ao Vivo: Sua empresa ainda não tem estratégias ESG? Atente-se: seu concorrente já saiu na frente!, uma coprodução da MIT Sloan Review Brasil e 2W Energia, Rodrigo Santini, diretor executivo do Sistema B Brasil, e Claudio Ribeiro, CEO da 2W Energia, falaram sobre a importância do ESG para a estratégia de negócios e os desafios para implantá-lo nas organizações.

Nos Estados Unidos e na Europa, muitas organizações já estão à frente quando falamos de pensar os negócios de forma mais ampla, muito além do retorno ao acionista. Ribeiro lembrou, por exemplo, que Larry Fink, CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, afirmou que só irá investir em empresas que obedecem a determinados critérios de ESG. “No mundo todo vemos as companhias do segmento de óleo e gás investindo em geração renovável. Na Europa, os países já assumiram o compromisso de ser net zero até 2050”, exemplificou o CEO da 2W Energia.

O executivo ressaltou que o Brasil tem a possibilidade de ajudar o planeta na transição energética. “No setor energético em geral, que envolve combustão, carros e transportes, o Brasil tem cerca de 45% de energia limpa e 55% de matrizes energéticas consideradas ‘sujas’. No mundo este número chega a 85%”, revelou. “Como temos muitas áreas degradadas onde se pode plantar árvores, os nossos projetos renováveis são elegíveis a crédito de carbono e têm condições de, com esse investimento, ajudar o mundo na transição, vendendo a outros países o crédito de carbono que eles precisam”, pontuou Ribeiro.

No início do evento, Santini contou sobre como surgiu o sistema B. Os três fundadores da organização tinham uma loja de artigos esportivos nos Estados Unidos que na época, anos atrás, já tinha uma série de práticas relacionadas ao que hoje chamamos de ESG, com ações voltadas ao meio ambiente, à relação com a comunidade e a temas sociais. Esse era um diferencial competitivo da marca que começou a crescer até que os donos receberam uma proposta e a empresa foi vendida.

Em pouco tempo, todas essas questões que faziam a diferença foram colocadas de lado e a cultura da loja ficou para trás. Incomodados e por não quererem ver isso acontecer em outras empresas, os fundadores da loja de artigos esportivos resolveram criar um modelo que reunisse uma série de regras para que as empresas pudessem traçar um caminho para implementar práticas ESG e para garantir que, uma vez implementadas, isso não se perderia numa transição para outra empresa. “Daí surgiu a certificação, muito mais como um direcionamento para que a companhia consiga chegar ou transitar neste lugar que chamamos de empresa de impacto positivo, que vai além do ESG. Uma empresa de impacto positivo está a serviço da sociedade, seja pelo produto ou serviço que oferece e que resolverá um problema social, beneficiando uma série de stakeholders ao redor dela”.

Ele ressaltou que o Sistema B é uma organização não-governamental que tem forte conexão com as empresas. “A questão de ESG é muito mais um caminhar, uma trajetória, do que um processo final. É uma construção. Acreditamos que todo negócio deve estimular uma economia mais inclusiva, equitativa e regenerativa”, ressaltou. Ele comentou sobre uma importante ferramenta, gratuita e online, que a ONG disponibiliza para que as companhias avaliem seu impacto. “A ferramenta avalia governança, colaboradores, clientes, comunidade e meio ambiente”, explicou.

O papel da liderança na jornada ESG

Cada vez mais as empresas percebem que o sucesso na condução da agenda ESG está relacionado ao envolvimento da liderança. Mas qual o papel dos executivos c-level nesta jornada? Ribeiro comenta que talvez o principal papel do c-level seja entender que a mudança que está acontecendo nas companhias não é igual para todas as empresas e que o executivo precisa ser um foco de disseminação da cultura de ESG.

“Quando entrei no mercado de trabalho aprendi nos livros que o objetivo de uma companhia era dar retorno aos acionistas, só que os acionistas também têm função social. As coisas começaram a mudar quando o sistema capitalista no qual vivemos passou a ver valor competitivo no ESG”, explicou. “É preciso entender que isso se trata de posicionamento da empresa, de trazer mais retorno para todos os stakeholders, que não é uma questão utópica. E isso tem de ser uma cultura a ser disseminada. Esse é o papel do c-level”, completou o CEO da 2W Energia.

Santini também comentou sobre a importância de ter a cultura de ESG enraizada nas empresas e falou da importância de liderar pelo exemplo, tendo por base os valores ligados à justiça social e climática. “É preciso viver isso na prática e demonstrar que a implementação dessas políticas irá gerar resultados positivos. Vemos que em momentos de crise muitas empresas deixam essas agendas de lado. E por que não são prioridade? Porque não estão integradas na cultura como agenda de extrema importância”, revelou. Outro ponto relevante, segundo ele, é que muitas já têm ações ESG estruturadas, mas não divulgam o que fazem. “Há um papel importante que é ser porta-voz do assunto, de inspirar muitas pessoas. Muitos pequenos e médios empresários talvez ainda não saibam que é possível implementar essa agenda. As empresas têm papel chave nesta história de protagonismo e de serem porta-vozes e provocadoras desse sistema para que outras venham junto nessa caminhada”.

Futuro

Para encerrar o webinar, os convidados falaram sobre qual o futuro esperado da ESG nas empresas brasileiras. O diretor executivo do Sistema B Brasil comentou que é preciso ir além das práticas relacionadas a essa agenda, e é necessário refletir sobre negócios regenerativos, que visam não só mitigar o impacto da atuação da companhia, como também reconstruir aquilo que já foi destruído. “Essa é uma discussão que já acontece e envolve pensar os negócios que fazem sentido em determinado contexto. Por exemplo, por que vou abrir essa empresa? No que ela contribuirá para a sociedade? Como ela constrói ou deixa uma sociedade melhor do que antes da empresa surgir? Essa discussão muda, inclusive, a perspectiva daquilo que o negócio oferece. Pensar em negócios regenerativos vai além de ESG e é importante olhar para esse futuro, para as próximas gerações, de construir ou reconstruir o que foi perdido”, apontou.

Ribeiro ressaltou que a pandemia de covid-19 foi um marco na vida de todos ao fazer as pessoas pensarem que a questão da finitude é muito próxima e que somos impotentes diante de tal situação. “A pandemia trouxe o significado de que somos todos iguais. Você pode morar em um condomínio, mas em algum momento irá se deparar com a realidade da qual faz parte. Talvez estejamos saindo da época em que o que vale é ganhar a qualquer preço. De que adianta ter uma Ferrari se as pessoas que encontro na rua estão passando fome? Acredito muito nessa conscientização e é por isso que as empresas têm de ter uma causa. Aquelas que não tiverem não sobreviverão”, concluiu o executivo.

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Autoria

Christye Cantero

Christye Cantero é editora de conteúdos cobranded da MIT Sloan Review Brasil

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