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Liderança

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Ainda dá tempo de ser um bom ancestral?

Refletir sobre esse assunto pode assustar e incomodar, mas traz naturalmente um senso de responsabilidade

Colunista Grazi Mendes

Grazi Mendes

21 de Fevereiro

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Artigo Ainda dá tempo de ser um bom ancestral?

Depois de um tempo imersa em outros projetos, retorno a este espaço na MIT Sloan Management Review Brasil com alegria e abro novamente os caminhos por aqui com uma das minhas principais inquietações no momento, abordando um tema que me atravessa profundamente. Tão profundamente que venho escrevendo muitas linhas, páginas e capítulos sobre isso, mas vou deixar para falar mais sobre essa novidade em outro momento.

Bem, a primeira faísca sobre o assunto da coluna de hoje surgiu em mim durante o processo da minha pesquisa para o mestrado, em que pude entrevistar diversas mulheres negras da área de tecnologia. Me identifiquei um pouco com cada história que ouvi e percebi o quanto nós somos os sonhos realizados de nossas mães, tias e avós. Como a primeira geração da família a ingressar nas universidades, estamos acessando oportunidades que foram negadas antes e, ao mesmo tempo, hoje viabilizadas através dos esforços e/ou renúncias de nossas ancestrais.

Isso me levou a refletir sobre como tudo que já existe hoje foi construído antes de nós por alguém, como resultado de um sonho, de uma luta, um estudo, uma invenção, entre diversas outras contribuições que podemos deixar no mundo. Somos continuidade.

Da mesma forma, todas as pessoas que vivem hoje serão ancestrais no futuro. Tudo que estamos fazendo deixa resíduos. Portanto, vale se perguntar: quais iniciativas que a sua caneta alcança seriam aprovadas pelas gerações futuras? Como líderes, qual é o legado de impacto positivo que estamos deixando?

Olhar para trás, andar para frente

O símbolo africano do Sankofa, tatuado na minha pele para que eu não me esqueça, mostra um pássaro que tem seus pés voltados para a frente e a cabeça para trás: retornar ao passado para ressignificar o presente e assim construir o futuro. Já a palavra, Sankofa, significa "voltar para buscar".

Essa suposta contradição, ao menos para quem olha para a questão com uma lente binária, na verdade é um baile entre tempos que guia nossos caminhos. Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e escritor brasileiro que você deve conhecer, lançou recentemente o livro Futuro Ancestral, mostrando que, de fato, não há contradição entre essas palavras. Pelo contrário, talvez seja o único caminho possível para a crise climática e nossos outros desafios contemporâneos.

Nessa mesma busca, acabei encontrando o livro chamado Como ser um bom ancestral, do Roman Krznaric, que logo se tornou uma presença constante em minha mesa de cabeceira. A provocação dele também me chamou a atenção, porque ainda estamos falando pouco sobre a ancestralidade por essa perspectiva de nós como ancestrais. Pensar sobre o assunto pode assustar e gerar um certo incômodo, pois traz naturalmente um senso de responsabilidade. Por isso mesmo, é um tema super necessário!

Em linhas gerais, para que seja possível sermos bons ancestrais em pleno 2023, precisamos ser capazes de romper com a lógica individualista e egocêntrica para pensar no coletivo. Durante o auge da pandemia, vimos reflexões sobre o cuidado coletivo ganharem mais espaço na mídia e nas redes. Talvez a gente tenha até avançado um pouco nesse ponto, mas precisamos continuar repetindo essas mensagens para que elas possam, de fato, gerar as transformações individuais e sociais de que precisamos.

Nunca é demais lembrar que somos, por essência, seres sociais e interdependentes. Esse fetiche da "autossuficiência" é uma narrativa hegemônica que não encontra espaço nas comunidades indígenas e negras, onde o estar junto é uma forma de sobrevivência.

Outro ponto essencial nessa discussão é que também vamos precisar abrir mão da lógica imediatista para passar a pensar em longo prazo. Eu sei que é um conceito subjetivo porque depende do referencial, então vou ser mais específica: enquanto nas empresas costuma-se falar em períodos de tempo de 5 a 10 anos, esse autor Roman Krznaric propõe o tempo de 100 anos como o mínimo para esse longo prazo, já que ultrapassa o tempo de uma vida humana e nos obriga a ir além do umbigo. Pensar uma geração.

Há um provérbio africano que diz que quem plantou uma árvore não viveu à toa. Fica a pergunta: você se dedicaria a trabalhar por algo que já sabe que não irá usufruir diretamente?

Comece onde você está, use o que você tem e faça o que você pode

Como vimos, o cuidado coletivo e o pensamento de longo prazo são dois princípios básicos que precisam estar presentes nas discussões sobre construção de futuros. Essa lente já está ajustada e refletida em seus planejamentos pessoais e corporativos? Tornar-se uma pessoa que é uma boa ancestral está nos seus planos para os próximos anos?

Para fazer diferença, você não precisa necessariamente realizar feitos grandiosos. Inclusive, essa megalomania cultural que vivemos pode acabar trazendo o efeito contrário, de paralisar a ação ao invés de incentivá-la.

Nem sempre precisamos alterar a direção ou "o quê" estamos fazendo, basta alterar o "como".

Nem todo mundo irá ocupar papéis de liderança ou construir legados de enorme impacto em suas passagens pela Terra, mas sempre há algo ao seu alcance que pode ser feito ou melhorado.

Daqui, fica o meu incentivo para que você faça o que puder com seus talentos, dons e ferramentas. Abaixo elenco algumas orientações:

  1. Analise quais decisões você toma atualmente e identifique aquelas que poderiam ser feitas de forma diferente para ampliar seu impacto positivo no entorno.
  2. Mapeie e apoie pessoas e organizações capazes de fazer o que você não consegue em sua área de atuação.
  3. Reflita sobre seu legado e mantenha-se coerente com seus objetivos de vida. Como você gostaria de ser lembrado?
  4. Insipire-se na ética amorosa de bell hooks e olhe para todas as suas relações com mais amor: parceiros, familiares, amizades, colegas de trabalho, vizinhança e as comunidades das quais você faz parte. O pertencimento anda em falta, mas é um santo remédio para a crise de conexão humana que estamos experienciando.
  5. Lembre-se de usar a sua voz nos espaços e veja o impacto se multiplicar através de outras pessoas.

"Há sempre um mundo, apesar de já começado, há sempre um mundo pra gente fazer. Um mundo não acabado" (Milionário do sonho - Emicida)

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Colunista

Colunista Grazi Mendes

Grazi Mendes

Grazi Mendes está como head of diversity, equity & inclusion na ThoughtWorks Brasil, consultoria global de tecnologia, é professora em programas de desenvolvimento de lideranças e cofundadora da Ponte, hub de diversidade e inclusão. Acumula cerca de 20 anos de experiência em gestão estratégica, branding, design estratégico, liderança e cultura, com atuação em empresas nacionais e multinacionais de segmentos diversos.

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