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Estratégia e inovação

5 min de leitura

Bear market ou bull market? Aposte na inovação

Inovação ou obsolescência: por que não existe tempo ruim para inovar

Colunista Marcone Siqueira

Marcone Siqueira

17 de Abril

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Artigo Bear market ou bull market? Aposte na inovação

Tenho dedicado os últimos 15 anos da minha carreira profissional estudando e ajudando grandes empresas a investirem e inovarem. Convivi com empresas em todos os cenários possíveis. Testemunhei o boom de inovação com startups e grandes apostas em transformação digital que marcaram os anos de 2012 a 2020. Vi o inverno mais sombrio que marcou o "entre-ondas" e o pós-pandemia de covid-19 que, para nosso azar, combinou com uma eleição acirrada e polarizada no Brasil.

Todos esses fatores culminaram no surgimento do “bear market” perfeito. (Para quem não sabe, essa expressão da língua inglesa remete a um mercado em queda. O “bear” vem de urso, animal que ataca suas vítimas de cima para baixo, o mesmo “movimento” que se vê nos gráficos de performance dos papéis que se desvalorizam na bolsa de valores.)

Algumas empresas buscaram inovação porque o mercado estava bom demais para ficar de fora. Outras, investiram em inovação porque era a única forma de sair do buraco. Notavelmente, em ambos os casos, havia empresas bem-sucedidas. Isso significa que, mais importante do que o estado atual do mercado, é a capacidade de execução de uma empresa atrelada a sua estratégia de inovação, que deve estar alinhada aos seus objetivos de negócios. O que muda em cada um dos cenários pode ser o tamanho da ambição, a visão estratégica por trás dos movimentos de inovação e como a companhia se organiza para atingir os objetivos.

Se a inovação deve ou não ser prioridade, não deveria mais ser tema de discussões nos corredores de grandes corporações. Infelizmente, nos últimos anos, testemunhei com frequência companhias bem estabelecidas e bem assessoradas gastando milhões com consultores de terno e linguajar rebuscado, capazes de convencer executivos de que os investimentos (mesmo aqueles em inovação) deveriam ser descontinuados porque os ventos mudaram de direção.

Por trás dessas inconstâncias de direção, está uma incapacidade de compreender que, independente do mood do mercado, a tecnologia e a inovação são irrefreáveis. Você pode até optar por não mudar, mas o seu consumidor vai mudar e o seu concorrente também. Quem ainda nem está no mercado hoje, vai entrar com um produto ou serviço revolucionariamente (ou marginalmente) melhor, que irá te custar caro em alguns dias.

Não à toa, uma pesquisa recente da McKinsey comprovou que as companhias que conseguem continuar inovando durante períodos de crise superam seus concorrentes em até 30% em momentos de abundância. Por essa razão, startups criadas de 2008 a 2009, durante a última grande crise financeira, representam a grande maioria das que conseguiram atingir o aclamado valluation de mais de US$ 1 bilhão globalmente, incluindo Airbnb, Uber, Whatsapp, Slack e Pinterest.

O mundo está cheio de histórias assim até hoje. Recentemente, Scott Galloway, docente de marketing da New York University e considerado um dos 50 melhores professores de negócios de todos os tempos, utilizou o termo "Ozempic corporativo" para descrever o que a inovação com inteligência artificial (IA) foi capaz de fazer nas empresas nos últimos anos. Assim como o remédio é cficiente para a perda de peso, trazendo sensaçãoide saciedadeae atuando para eliminar gordura e açúcar no sangue, o “Ozempic Corporativo” é capaz de aumentar a eficiência dos recursos de uma companhia ao mesmo tempo que aumenta a sua capacidade de gerar receita.

Como exemplo claro para ilustrar esse efeito, Galloway utiliza os últimos anúncios de demonstrativos financeiros das companhias de tecnologia que, apesar de terem passado por enormes layoffs, conseguiram aumentar a receita e, como já era de se esperar, a lucratividade. A Meta, dona do Facebook e Instagram, reportou em 2023 um crescimento de receita líquida de 73% ao mesmo tempo que cortou 13% dos seus custos. E não para por aí. Outras como Cisco, Google e IBM seguiram pelo mesmo caminho.

Obviamente, como a lista deixa claro, é muito mais fácil falar do que fazer. Não à toa, as empresas que conseguiram este feito são também aquelas empresas em que a inovação não se trata apenas de um departamento ou um programa específico. A inovação faz parte do core da empresa e é permanente. Assim como outras funções vitais para a manutenção de uma empresa, como o Marketing ou Jurídico, por exemplo. Nelas, a inovação não precisa de ambiente ou cenário macroeconômico favorável para acontecer. Ela simplesmente acontece.

Similarmente, em tempos de “bull markets” (uma metáfora que se vale da figura do touro, bull em inglês, que faz um movimento de baixo para cima com os chifres ao atacar, para fazer alusão ao movimento ascendente dos mercados), várias empresas conseguiram utilizar a inovação para surfar em ondas positivas e de crescimento, lançando novos produtos, diversificando receitas e entrando em mercados adjacentes ou completamente novos.

Mais uma vez, é mais fácil falar do que fazer, pois é preciso muita maturidade corporativa e de inovação para realizar projetos realmente inovadores, com resultados comprováveis. Um bom exemplo está na gigante de tecnologia Apple, que nos últimos anos aproveitou a onda de adoção tecnológica pelo consumidor ao redor do mundo – onda esta, que ela mesma ajudou a criar– para inovar e entrar em mercados completamente novos como o de telefones celulares, aplicativos e serviços financeiros. Basta lembrar que a Apple, até então, era uma fabricante de computadores.

A companhia se dedicou não apenas à inovação, mas a transformar e trazer disrupção à indústria. Desde as inovações com os computadores pessoais, interfaces amigáveis até a criação do iPhone, nos anos 2000. Em 2010, trouxe o iPad, redefinindo a forma de consumir conteúdo e trabalhar. Em 2020, lança e aprimora Apple Watch e AirPods, transformando a indústria de vestíveis e de áudio. Trata-se de uma história excepcional no mundo corporativo, no entanto, é o tipo de trajetória que ilustra um pouco do tipo de habilidade de criação e adaptação que serão esperadas das companhias de todos os segmentos na era da IA – e numa velocidade ainda maior.

E essa não é apenas uma habilidade de empresas de tecnologia. Algumas companhias centenárias e tradicionais têm utilizado inovação como alternativa ao seu core business. A Ambev com sua entrada no mercado de serviços financeiros com a BEES e entrega de bebidas com o Zé Delivery, por exemplo, está aí para provar que, independentemente do setor, a inovação pode ser a chave para desbloquear novas oportunidades de crescimento e sustentabilidade. Para as empresas que buscam não apenas sobreviver, mas também prosperar, a dica é clara: não importa se o mercado está pra cima ou pra baixo, aposte em inovação.

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Autoria

Colunista Marcone Siqueira

Marcone Siqueira

Marcone Siqueira é CEO e cofundador da The Bakery, empresa global de estratégia e inovação corporativa. Anteriormente foi chefe de investimentos do governo da Coroa Britânica na América Latina e no Caribe, responsável por investimentos de impacto da região para o Reino Unido. Além de atuar como investidor anjo, ele também é docente em inovação corporativa em diversas instituições.

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