fb

6 min de leitura

Cronos, as moiras e a transformação digital

Eventos como o SAS Forum Brazil trazem à tona a estreita relação entre a analítica avançada e o tempo; a mitologia grega nos ajuda compreender mais profundamente a relação

Colunista Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni

02 de Julho

Compartilhar:
Artigo Cronos, as moiras e a transformação digital

Cronos, deus do Tempo,
e o mais terrível filho da Terra,
segundo os gregos.

No âmbito das possibilidades da analítica avançada e dos constituintes da transformação digital, o tempo é um protagonista inadvertido. Afinal, a motivação essencial dos negócios para transformarem-se digitalmente é economizar tempo: o tempo para lançar um novo serviço ou produto, o tempo de atendimento aos clientes, o tempo gasto em reprocessamentos, o tempo para obter o retorno do investimento etc. A economia digital pode ser compreendida como “a economia da economia do tempo”. 

Em junho recente, a primeira edição do SAS Forum Brazil, em São Paulo, deu à comunidade analítica brasileira a oportunidade de um contato mais aproximado com as soluções do SAS. A ênfase recaiu naquilo em que a transformação digital melhor se ajusta: a economia do tempo. Circularam, entre 17 estandes, mais de 2 mil pessoas que aproveitaram cerca de 60 horas de conteúdo. Tempo bem investido, pode-se facilmente afirmar.

Pensemos a respeito do tempo: as diferentes expressões atribuídas ao conceito também se ajustam à missão da analítica avançada, ou seja, reduzir o tempo no processo decisório das empresas. 

Por exemplo, a expressão “a tempo associa-se ao significado de momento certo. Conceber o fórum do modo como este foi concebido visava desde sempre falar daquilo que é relevante e oportuno para o momento da transformação digital. Em vista disso, o SAS Forum Brazil enfatizou precisamente a dimensão deste “momento oportuno”. As palestras de Martha Gabriel – renomada pesquisadora e professora na área –, e dos executivos do SAS, Bob Messier e Wilson Raj, acentuaram a importância da experiência do cliente, que se refere sobretudo ao momento adequado para interagir com ele. Entre suas prescrições para alcançar o estatuto de “momento certo” destacaram-se recursos como inteligência artificial (IA) e internet das coisas (IoT). O que merece destaque, assim, é o poder determinante de se oferecer a tempo aquilo que é relevante. 

A missão da analítica avançada é reduzir o tempo no processo decisório das empresas. Todas as expressões que no dia a dia relacionamos com o conceito – “a tempo”, “o tempo musical”, “dar um tempo”, “perder tempo”, “tempo de trabalho”, “tempo de percurso”, “em outros tempos” – estão alinhadas com isso

Outra expressão frequentemente encontrada diz respeito ao “tempo musical, ou seja, o andamento, o ritmo, a duração do compasso. No processo de desenvolvimento de modelos analíticos importa muito o ritmo ou o andamento da atividade. Modelos que necessitam usar, por exemplo, diferentes categorias de dados – imagem, texto, voz, dados transacionais etc. – possuem ritmos de desenvolvimento distintos. O andamento – o tempo – da criação e refinamento de modelos difere em função dos casos de uso. Modelos de reconhecimento facial para fins de segurança distinguem-se de modelos de reconhecimento de voz. Os conhecimentos requeridos são múltiplos, ora em função da tecnologia adjacente, ora em função de modelos de negócio, ora em função de características da indústria etc. São ritmos variados, andamentos diversos. Em razão disso, nosso fórum convidou oito parceiros com diferentes áreas de especialização e mais de 15 clientes para apresentar seus casos de sucesso. Um dos casos mais interessantes sobre a importância do andamento no ciclo analítico foi demonstrado por uma instituição financeira que, através das soluções do SAS, foi capaz de reduzir o tempo total do ciclo de 18 meses para apenas algumas semanas.

Há ainda a expressão “dar um tempo” – que significa propiciar pausa para uma atividade ou reflexão. No contexto do SAS Forum, a palestra da Luiza Trajano acerca da transformação digital do Magazine Luiza destacou a importância de abraçar a diversidade, com leveza e simplicidade. A grande representante do varejo brasileiro deu um tempo para o tema da diversidade. O Forum destacou ainda o projeto global do SAS denominado #DataforGood, que visa sobretudo encontrar correlações em grandes volumes de dados que possam contribuir para o bem social e o bem do planeta. Neste tema, o Dr. Gustavo Werutsky, que representa a entidade de pesquisa Lacog, apresentou o projeto latino-americano na luta contra o câncer, com o uso da tecnologia do SAS. As duas palestras enfatizaram essa necessidade de darmos um tempo ao bem.

É Cronos quem rege a urgência da inteligência analítica, manifestada em expressões tão cotidianas como “ter tempo”, “perder tempo”, “tempo de trabalho”, “tempo de percurso”. Tais expressões muito coincidem com os desígnios da transformação digital. Cada vez mais a sociedade quer ter tempo para poder otimizar tempo de trabalho para o que o tempo de percurso da vida seja melhor aproveitado. 

Costuma-se dizer que, “em outros tempos, o tempo demorava a passar e que assim a vida era melhor aproveitada. Mas de que proveito falávamos então? 

Os cientistas de dados atuais são como as moiras da mitologia grega. Elas decidem sobre o fio da vida humana; eles, sobre os modelos com que trabalhamos os dados

Na mitologia grega, as moiras – as três irmãs que determinavam o destino das pessoas diante de um tear, a Roda da Fortuna – manipulavam o fio da vida cada uma à sua maneira. A primeira delas, Cloto, responsável pelo nascimento, segurava o fuso e tecia o fio da vida. De modo análogo, cientistas de dados dão início ao ciclo analítico concebendo sand boxes por meio de processos de preparação de dados. A segunda moira, Láquesis, puxava e enrolava o fio da vida, dando sentido ao viver na forma de sorte (destino, valor) da pessoa. Também aqueles que desenvolvem modelos preditivos e prescritivos dão sentido aos dados para que estes encontrem correlações que possam oferecer valor para uma estratégia de negócios. A terceira moira, Átropos, cortava o fio, determinando a circunstância que configurava o fim da vida. Como os cientistas de dados, que decidem sobre a obsolescência de seus modelos e as técnicas que podem revitalizá-lo. Nos tempos atuais, o maior proveito é a possibilidade de encontrar sentidos não intuitivos a partir dos dados.

Segundo os gregos, as moiras tinham em suas mãos os desígnios de Cronos. Diante da transformação digital, aqueles que engendram os ferramentais analíticos e as técnicas mais sofisticadas de machine learning, deep learning e natural language processing, entre outras, agora modelam os diferentes significados atribuídos ao tempo. Nunca antes estivemos tão senhores da percepção do tempo como agora. A revolução analítica é um novo tempo verbal: é o presente do indicativo e o indicativo do futuro; é o futuro do pretérito que não pretere do passado, mas o incorpora em suas análises; é um gerúndio infinitivo e um particípio presente que sustenta a IA. 

Cronos mora nas entranhas da transformação digital, lá onde as moiras preparam os dados em finos fios e os correlacionam em tecidos de valor circunstancial e determinam a sua inutilidade diante de novas exigências de negócios. O SAS Forum Brazil foi assim o episódio que ressaltou que o maior poder de Cronos, para cada integrante da revolução analítica: é o poder de saber antes que ele – o tempo – se esgote.

Compartilhar:

Colunista

Colunista Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni é managing director da Quality Digital e membro do conselho consultivo da ABRIA (Associação Brasileira de Inteligência Artificial). Tem mais de 30 anos de experiência no setor de tecnologia, é graduado e mestre em filosofia, e reúne experiências empreendedoras e executivas no currículo. Vencedor do prestigioso prêmio Jabuti, com a obra Humanamente Digital: Inteligência Artificial centrada no Humano.

Artigos relacionados

Imagem de capa Bear Market ou bull market? Aposte na inovação

Estratégia e inovação

17 Abril | 2024

Bear Market ou bull market? Aposte na inovação

Inovação ou obsolescência: por que não existe tempo ruim para inovar

Marcone Siqueira

5 min de leitura

Imagem de capa O futuro da atuação jurídica: uma jornada de inovação e adaptabilidade

Tendências

15 Abril | 2024

O futuro da atuação jurídica: uma jornada de inovação e adaptabilidade

Empresas atualmente gastam mais de R$ 20 bilhões por ano em demandas jurídicas. A tendência é que esse valor seja cada vez mais alocado em demandas estratégicas e consultivas, em detrimento de defesas em passivos judiciais. Estão os advogados se preparando para atuar como conselheiros, dotados de uma visão holística dos clientes?

Katsuren Machado

3 min de leitura