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Cultura Organizacional

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Desenvolva habilidades para o futuro com a prática do coaching entre pares

O coaching entre colegas desempenha um papel fundamental no desenvolvimento das habilidades humanas que a tecnologia não consegue substituir. É mais rápido e ajuda a construir confiança, o que melhora o ambiente de trabalho

Aaron Hurst

10 de Março

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Artigo Desenvolva habilidades para o futuro com a prática do coaching entre pares

As forças da ruptura que moldam o futuro do trabalho tiveram sua velocidade de atuação multiplicada durante o primeiro ano da pandemia. O trabalho presencial tornou-se inseguro para muitos e empresas de todo o mundo se voltaram para o trabalho remoto e aceleraram o uso de tecnologias de automação, como inteligência artificial (IA) e robótica. A covid-19 provocou um choque de alocação de pessoal que, segundo economistas da Universidade de Chicago, causou três novas contratações para cada dez demissões. Eles também preveem que 32% a 42% das demissões relacionadas à covid-19 serão permanentes.

Para evitar o desemprego de longa duração em massa, devemos priorizar e investir esforços na preparação dos trabalhadores para os empregos do futuro. Cada vez mais, esses são os tipos de trabalhos que se concentram em habilidades exclusivamente humanas que as tecnologias atuais não podem substituir – coisas como empatia, resolução de problemas, colaboração e comunicação. Aumentar essas habilidades não apenas ajuda os profissionais, mas traz também resultados comerciais reais: as habilidades humanas tornam as empresas mais fortes.

O Future of Jobs Report 2020 do Fórum Econômico Mundial mostra que os trabalhadores percebem isso. Temas como mindfulness, meditação, gratidão, bondade e escuta entraram nas dez principais áreas de foco entre as pessoas empregadas, suplantando assuntos como redes neurais artificiais, computação em nuvem e estatísticas gerais.

Os empregadores também reconhecem a necessidade de incentivar o desenvolvimento das chamadas habilidades sociais, também designadas como habilidades de poder ou habilidades humanas. As organizações, porém, se deparam com um desafio: a maior parte do treinamento oferecido aos seus colaboradores se destina a ensinar habilidades técnicas ou de rotina. Os programas tradicionais de aprendizagem no local de trabalho foram criados semelhantes de escolas e universidades, com professores transmitindo conteúdo aos alunos e ainda seguindo o mesmo modelo. por instrutores não serão suficientes.

O desenvolvimento de habilidades humanas segue um ritmo completamente diferente, em que seminários e workshops dados por instrutores não serão suficientes. As pessoas desenvolvem habilidades como empatia, comunicação, escuta e a capacidade de fornecer feedback construtivo ao serem postas em situações nas quais precisam colocar essas habilidades em uso.

Esta é a principal razão que faz com que eu me volte para o coaching entre pares, no qual colegas se reúnem, pessoalmente ou por vídeo, em conversas 1:1 (one-on-one) com duração de uma hora cada, em caráter contínuo. Eles fazem perguntas uns aos outros, ouvem atentamente, oferecem ideias e fazem planos para efetivar uma ação concreta antes da próxima sessão.

Esse tipo de interação – entre pares reais, sem que nenhum dos participantes atue como o "professor" – é o melhor para desenvolver habilidades humanas. Em meu trabalho ajudando as empresas nesse processo por meio do coaching entre pares, identifiquei as diferenças fundamentais de aprendizado entre demandas técnicas e humanas. (Veja "habilidades técnicas versus habilidades humanas".) Neste artigo, examino o que essas diferenças significam para quem define essas demandas e ofereço quatro maneiras pelas quais o modelo pode melhorar o desenvolvimento de habilidades.

Habilidades técnicas versus habilidades humanas

Habilidades técnicas e habilidades humanas diferem em seis categorias principais de aprendizagem. As abordagens tradicionais de aprendizagem e desenvolvimento, como seminários e workshops em grupo, são menos eficazes para as chamadas de humanas devido a essas diferenças fundamentais.

COMPETÊNCIAS TÉCNICASHABILIDADES HUMANAS
Fonte de ConhecimentoExternoInterno
PsicológicoNão é focoÉ o foco
Perda de aprendizadoMínimoSignificativo
PráticaPode ser individualSocial
Medição da eficáciaFácil Difícil
AplicaçãoRegular Diversa; sobre pessoas

Explorando o conhecimento interno

O aprendizado de habilidades "hard" ou técnicas se dá pela transferência de conhecimento do especialista ou instrutor para o aluno. As habilidades humanas, no entanto, vêm em grande parte de dentro de nós mesmos. As pessoas devem explorar suas próprias experiências e emoções e colocá-las em uso.

O Greater Good Science Center da Universidade da Califórnia, em Berkeley, sugere a escuta radical para aumentar a empatia. Ela exige que se manifeste uma "capacidade de estar presente aos sentimentos e necessidades únicos que uma pessoa está vivendo". Para muitos, talvez a maioria, a habilidade já está lá, no fundo – ela só precisa ser alcançada, o que significa mostrar-se vulnerável também e se abrir sobre seus sentimentos e desafios.

Certamente há um papel para os instrutores, como orientar uma maneira de demonstrar empatia ou exibir pesquisas sobre os benefícios de uma comunicação eficaz. Mas, para desenvolver essas habilidades, as pessoas precisam olhar para dentro e trazer mais de si mesmas para a superfície em suas interações com os outros. Em sessões de coaching entre pares, é exatamente isso que eles fazem.

Criando um efeito pendular positivo

Habilidades técnicas, como escrever códigos ou pesquisar em um banco de dados, vêm de conhecimentos básicos fundamentais e práticas orientadas que podem ser obtidas tanto em aprendizado individualizado quanto em grupo. Palestras e workshops em grandes grupos funcionam melhor para um conteúdo consistente e de tamanho único sobre como executar uma habilidade técnica. Mas as habilidades humanas se desenrolam de forma diferente para cada pessoa com base na psicologia individual.

Além disso, ao contrário da codificação, as pessoas não podem praticar habilidades humanas por conta própria. Elas são inerentemente sociais. O coaching entre pares é projetado para essas diferentes necessidades de aprendizado. Em uma sessão de uma hora, os participantes conversam e ouvem uma quantidade igual de tempo. Sem uma terceira pessoa lá, apenas o ouvinte pode responder com empatia e fornecer feedback – e cada um tem que encontrar sua própria maneira de fazê-lo.

Isso cria um efeito pendular positivo, alternando os papéis. Os coaches de pares constroem relacionamentos uns com os outros em torno da aceitação e abertura. Isso, por sua vez, pode aumentar a liberação de ocitocina, que "promove sentimentos de lealdade, confiança e vínculo", como explicou um psicólogo à NPR. Esse aumento da confiança leva os colegas a explorar e desenvolver ainda mais suas habilidades humanas juntos.

Impulsionando o processo de desaprendizagem

Quando falamos de habilidades técnicas e novas competências, as pessoas podem aprender do zero. Mas para a aprendizagem social e emocional (social and emotional learning, SEL), isso não é possível. Como consta em um conjunto de diretrizes para educadores da SEL, "dificilmente os alunos vêm à aula tendo repetidamente feito uma versão incorreta de uma tabela de multiplicação, mas podem ter um aprendizado sólido em não esperar sua vez ou não ouvir os outros com atenção".

Na idade adulta, já tivemos muitos anos para absorver padrões de pensamento e comportamentos negativos que podem bloquear o desenvolvimento de habilidades humanas, como fazer suposições tendenciosas sobre outras pessoas ou se irritar rapidamente quando confrontado com críticas.

À medida que um processo de coaching entre pares avança, as pessoas desaprendem continuamente. O feedback de um parceiro os ajuda a descobrir falhas em seu próprio pensamento. Uma pergunta simples de um coach de pares, como: "você já pensou em olhar para isso dessa maneira?" pode ajudar alguém a perceber que tirou conclusões precipitadas ou pressupôs algo. Da mesma forma, os participantes que oferecem o que eles acham que é um feedback útil podem receber uma resposta, como: "bem, essa sugestão não se aplica bem para mim, e aqui está o porquê". O coaching entre pares desencadeia um processo de reflexão, que a pesquisa mostra ser crucial para aprender e desaprender.

Feedback para avaliar o progresso

Muitas vezes me perguntam como se pode medir o progresso dos coaches de pares. Embora as habilidades técnicas, como design de software ou ciência de dados, muitas vezes tenham métricas objetivas para comparar, os resultados nas habilidades humanas são muito mais subjetivos.

Algumas organizações usam avaliações 360 graus para ajudar a avaliar o desenvolvimento de seus funcionários nessas arenas. Um grupo de economistas do Banco Mundial recomenda avaliar as habilidades sociais por meio de uma série de exercícios que levam uma hora inteira por pessoa. Mas não importa o que aconteça, os gerentes não serão capazes de exprimir adequadamente, por meio de um número ou nota, o quão bem seus funcionários estão indo.

O que está claro é que quanto mais as pessoas exercem essas habilidades, mais elas crescem. Nossa equipe observou o feedback a respeito de gerentes, colegas e subordinados melhorar muito à medida que eles se envolviam em coaching de pares ao longo do tempo. Essas conversas 1:1 – cujos pares variam a cada poucos meses – ajudam a transformar habilidades humanas em hábitos diários. O mesmo acontece com os compromissos de ação posterior que as pessoas assumem durante cada sessão, como ter uma conversa difícil com um gerente ou pedir desculpas a um colega. Sabendo que seu treinador de pares os responsabilizará, 80% dos participantes de nossas sessões de coaching entre pares seguem seus planos. Aqui, o processo de aprendizagem pelo exercício se estende além das próprias sessões.

O futuro do desenvolvimento de habilidades humanas no trabalho requer um novo modelo. Quando o coaching entre pares é incluído, ele cria um ritmo que faz progredir uma organização e as pessoas essenciais a ela.

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Autoria

Aaron Hurst

Aaron Hurst é CEO e cofundador da Imperative e autor de The Purpose Economy (Elevate, 2014).

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