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Diversidade e inclusão

7 min de leitura

E se a imaginação fosse uma tecnologia?

É impossível falar de imaginação sem pensar em diversidade e resgatar a ancestralidade. Deve-se criar novos imaginários e futuros, mais plurais e que desafiam o status quo

Colunista Grazi Mendes

Grazi Mendes

30 de Setembro

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Artigo E se a imaginação fosse uma tecnologia?

Já imaginou um mundo sem preconceitos, ou isso lhe soa ridículo? E se as escolas, ao invés de ensinar, aprendessem com as crianças em que mundo elas querem viver, seria mera fantasia infantil? Por que perder tempo sonhando quando há tanto a ser feito? Afinal, John Lennon deveria ter cantado sobre ações concretas e não sobre simples imaginações, certo? E Martin Luther King, não teria sido mais eficaz em seu icônico discurso ao abordar questões práticas em vez de descrever seus sonhos? Contudo, se sistemas opressores surgiram da nossa imaginação, quem diz que não podemos reimaginá-los? Líderes de sucesso deveriam apenas focar naquilo que consideramos eficiente, ou será que os sonhos são a primeira etapa para uma ação transformadora?

Alimentar algumas crenças, como as do parágrafo anterior, afastou-nos de nós mesmos e do planeta. Como resultado, acumulamos desafios enormes e complexos que vão de pandemia de saúde mental à crise climática. E, não por ironia do destino e sim por sabedoria (inclusive a ancestral), é exatamente nossa imaginação que nos ajudará a quitar essa fatura. Imaginar não é atividade pueril ou de gente desocupada. Ao contrário, é a ação fundamental de quem se ocupa realmente de um futuro onde seremos capazes de resolver os problemas urgentes do presente.

Como fruto dessa nossa visão ainda limitada, estamos diante de uma crise de imaginação que vem se agravando ao longo dos anos. De acordo com um estudo realizado pela Universidade de Kentucky, crianças em idade escolar estão produzindo menos ideias criativas do que as gerações anteriores. Outra pesquisa, publicada na revista Thinking Skills and Creativity, aponta que os níveis de criatividade em adultos vêm diminuindo significativamente desde a década de 1990. A necessidade de estabelecer novos espaços de reflexão foi um dos fios condutores do KES Summit 2023, que aconteceu no final de agosto, em Trancoso, no litoral sul da Bahia. Os caminhos discutidos ao longo do evento incluem a redefinição do próprio conceito de temporalidade, como destacou Gustavo Nogueira, fundador do Temporality Lab e da Torus Company. “Entramos no ciclo de entregar, performar, consumir. Aceleração é diferente de progresso: rápido é diferente de bem feito", afirma.

Mais do que simplesmente pressionados pelo tempo, muitos executivos, impulsionados pelos desafios constantes do mercado, têm uma visão encurtada, focada quase exclusivamente no próximo trimestre. Essa mentalidade focada no "agora" pode nos levar a perder de vista o panorama geral e as mudanças transformadoras de longo prazo. Estamos intoxicados por um excesso de objetividade. As listas de best-sellers, formadas majoritariamente por títulos de auto-ajuda, são apenas um dos inúmeros sintomas de nossa crescente incapacidade de lidar com cenários de ambiguidade e complexidade. A busca incessante pelo atalho mais curto para o sucesso nos deixa ansiosos pela próxima dose de dopamina. Essa ânsia nos faz acreditar que sonhar grande é conquistar o primeiro bilhão da maneira mais rápida possível e fugir para Marte quando as coisas ficarem complicadas demais aqui na Terra. Talvez o que realmente precisemos seja de mais líderes imersos em poesia, romance e ficção, e não apenas em manuais de gestão.

Por falar em ficção, romance e poesia, na dissertação intitulada Nascedouro no sertão: um estudo sobre criatividade, o pesquisador Rafael de Santis Bastos investiga a criatividade tomando como base a trajetória de João Guimarães Rosa e suas conexões com as ideias de Carl Gustav Jung sobre criação. Do estudo, emergem três conceitos-chave que se cruzam nas perspectivas de Rosa e Jung: brincadeira, despactuação e luta.

Centrando-nos na "brincadeira", é notório o elemento lúdico na abordagem criativa de Rosa. Jung, complementando essa visão, sugere que a criatividade do adulto ainda carrega nuances da ludicidade da infância. Ele ressalta a importância do ato de brincar das crianças como fundamento para o desenvolvimento da imaginação e observa: “Há bem poucas pessoas criativas que não foram acusadas de brincarem”.

Por isso, num momento em que muitos anseiam por uma fuga da realidade, o escape imaginativo pode ser benéfico para o propósito de explorar futuros, sejam eles possíveis ou não. Nelly Ben Hayoun, que marcou presença no KES Summit, tem se aprofundado nessa perspectiva com o conceito de “imaginação radical”. Esta abordagem encoraja a visualização do mundo, da vida e das estruturas sociais, não pelo que são, mas pelo que podem vir a ser. Especialista em design de experiências, Nelly concebeu iniciativas como a Universidade do Underground. Esta organização educativa é destinada a alunos que divergem dos padrões acadêmicos tradicionais, incentivando-os a conceber projetos que desafiam o status quo e as hierarquias institucionais existentes.

Como já falei diversas vezes nesta coluna, a falta de diversidade é outro enorme obstáculo a ser superado. Nunca tivemos tanto acesso a dados e informações. No entanto, somos “data-driven” apenas na hora de confirmar vieses e reforçar bolhas de referências. Na guerra pela atenção do usuário, estamos deixando algoritmos — criados por pequenos grupos de engenheiros e executivos — sonharem e decidirem pela gente. E não venha me dizer que a falta de diversidade é por falta de acesso ou tempo. De acordo com o último levantamento do Global Digital Report, as pessoas passam cerca de 55 horas mensais em aplicativos de redes sociais. Pois bem, agora reflita e responda: no último mês, quantas horas você dedicou a explorar outras realidades e visões de mundo com profundidade e atenção?

Carl Jung em sua obra defende que todo processo criativo exige algum afastamento do que é provável, daquelas tendências consideradas gerais. Para criarmos algo realmente novo é necessário buscar ativamente novos imaginários. Uma despactuação com os padrões coletivos.

Por isso, imaginação não é um luxo ou um devaneio abstrato, mas uma ferramenta poderosa de transformação e libertação coletiva. Quem diz isso é Ruha Benjamin, socióloga e professora do departamento de estudos afro-americanos da Universidade de Princeton. Autora do livro Imagination: a manifesto, Benjamin nos convida a pensar em universos paralelos que parecem distantes, mas que estão mais próximos do que imaginamos da nossa realidade, como mundos sem prisões, redes de acesso global a alimentação de qualidade e escolas que valorizam o talento individual de cada aluno. Tudo isso começa pela nossa habilidade de transcender a realidade e imaginar possibilidades além das telas de nossos smartphones.

Também é impossível falar de imaginação sem resgatar a nossa ancestralidade. Essa relação vem sendo defendida incansavelmente por alguns dos maiores pensadores brasileiros de nossos tempos, como Ailton Krenak, Katiuscia Ribeiro e Sidarta Ribeiro. Nessa busca contínua por novas bússolas morais e sociais, esses autores destacam a necessidade de dar um passo atrás e resgatar saberes fundamentais que desafiam a lógica que até então dominou as nossas vidas.

Voltando a buscar inspiração na prosa e na poesia, três mulheres pretas e escritoras já nos ensinaram a imaginar através do resgate da nossa ancestralidade. Geni Guimarães, Conceição Lima e Carolina de Jesus oferecem a honra aos ancestrais, a memória e criação como base para novos imaginários. A primeira delas, Geni, experienciou ao longo da vida as três palavras-chave aqui já mencionadas — brincadeira, despactuação e luta.

A brincadeira da infância que a permitia imaginar o que ser quando se tornasse adulta. A despactuação com as regras sociais e coletivas, que a colocavam — como menina preta, filha de um empregado de fazenda analfabeto — no único lugar que o dono da fazenda admitia: presa a um casamento com alguém como o próprio pai. E por fim, a luta. Uma batalha de palavras travada pelo pai de Geni contra o dono da fazenda, narrada no conto Alicerce, da própria escritora. O resultado, ela revela em uma entrevista: na volta da formatura que a tornou professora, o pai pergunta “cadê o danado do diploma” e diz que vai colocá-lo embaixo do travesseiro, pra ter um sonho bom.

Ela também sonhou, um sonho bom e coletivo, impactando tantas leitoras e leitores que se reconhecem nas memórias e narrativas, expandindo seus imaginários através delas. Certa da sua contribuição, Geni, na mesma entrevista, afirma:

“Já não morro mais, eu e Conceição {Evaristo} não morremos mais, nós escrevemos como setas indicando caminhos para nosso futuro de luta, de quebras de racismo, de preconceitos, e da nossa afirmação enquanto gente negra dentro de uma sociedade que faz muita força para nos derrubar. Mas nós não caímos e não vamos cair, porque nós estamos plantando. E minha mãe dizia: quem planta, colhe.”

Assim como fizeram e fazem as Genis, Conceições, Carolinas e muitas que vieram antes de nós, precisamos imaginar, despactuar e lutar. Plantar conjuntamente no presente as soluções coletivas para as nossas crises globais. Criar novos imaginários, mais plurais e que desafiam o status quo. Sonhando juntos, estaremos cada vez mais perto de expandir os limites de nossas próprias realidades e criar novos futuros, que nos caibam e nos pertençam. A todas nós.

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Colunista Grazi Mendes

Grazi Mendes

Grazi Mendes está como head of diversity, equity & inclusion na ThoughtWorks Brasil, consultoria global de tecnologia, é professora em programas de desenvolvimento de lideranças e cofundadora da Ponte, hub de diversidade e inclusão. Acumula cerca de 20 anos de experiência em gestão estratégica, branding, design estratégico, liderança e cultura, com atuação em empresas nacionais e multinacionais de segmentos diversos.

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