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Diversidade e inclusão

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Etiqueta inclusiva: o que todes podem aprender sobre pronomes de genêro

Entenda a importância de praticar a linguagem neutra de gênero em sua empresa, e pratique – na sua empresa e nas redes sociais

Colunista Daniele Botaro

Daniele Botaro

18 de Novembro

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Artigo Etiqueta inclusiva: o que todes podem aprender sobre pronomes de genêro

Há algumas semanas, em uma conversa informal, fiz uma brincadeira com uma amiga de 17 anos perguntando se ela estava com algum namoradinho na quarentena. Ela repondeu que não e ressaltou que poderia não ser exclusivamente um namoradinho, já que ela se identifica como pansexual.

Assim, tão natural como deveria ser a resposta. Aliás, o que não foi nada natural é a minha pergunta, pois mesmo estudando e respirando diversidade e inclusão no meu dia a dia e sendo uma mulher lésbica, continuo fazendo perguntas que reforçam a heteronormatividade esperada sobre as relações afetivas. (Dica: o que eu deveria ter perguntado é se ela estava saindo com alguém e não uma pessoa do gênero masculino).

Pessoas não-binárias (termo guarda-chuva que engloba todas as identidades de quem foge ao binário de gênero, ou seja, quem não se encaixa em masculino ou feminino) estão cada dia mais visíveis e fazendo parte dos nossos ciclos de convívio, sejam eles sociais ou profissionais. Mais filmes e séries com personagens não-binários estão circulando em plataformas de streaming e grandes mídias, como a série da HBO “Todxs Nós”, cujo lema é “descubra quem você é, sem deixar de ser você mesme”. Outro desses espaços, e talvez o maior de todos, são as mídias sociais. Por isso, tem sido cada vez mais comum ver pessoas identificando seus perfis com os pronomes pelos quais gostariam de ser chamadas.

Pronomes de gênero de preferência, ou pronomes de gênero pessoais, referem-se ao conjunto de pronomes de terceira pessoa que uma pessoa prefere que outros usem para identificar sua identidade de gênero. São comumente conhecidos "ela/dela", para identificar mulheres, "ele/dele" para homens e "eles/deles" para representar o plural, que pode ser um grupo misto, incluindo aí várias identidades de gênero. Existe uma cultura implícita de que isso já está declarado quando interagimos com alguém que tem aparência masculina e feminina o que faz muita gente questionar o porquê de fazê-lo de forma explícita e intencional em uma apresentação pessoal, seja ela falada ou escrita.

Quando se trabalha com diversidade e inclusão, um dos pilares mais importantes é a linguagem. Uma das formas mais sutis de transmitir uma discriminação pode ser pela maneira como nos expressamos, pois nossa língua reflete valores, crenças e pensamentos preestabelecidos.

De tudo que dizemos em cada momento de nossa vida, nada é neutro, Muitas palavras que usamos podem transmitir mensagens que reforçam os estereótipos e até excluem pessoas. Por isso é tão importante entender e praticar a linguagem neutra de gênero ou linguagem não-binária para referir-se às pessoas sem determinar um gênero, baseado unicamente em sua aparência física.

A seguir, algumas da dúvidas mais comuns:

Isso não é importante só para pessoas LGBTQ+s ou não-binárias, ou para todes?

Apesar de ser especialmente importante para as pessoas não-binárias, é fundamental que pessoas cisgênero ou binárias também o façam para que se torne algo natural e não um marcador apenas para pessoas que fazem parte desse grupo.

Por que usar essa linguagem não-binária para se referir às outras pessoas?

A forma como você chama alguém deve levar em consideração a prefêrencia da pessoa e não por elementos de sua aparencia física, o que pode acabar ofendendo pessoas não-binárias. Você pode estar fazendo um elogio e dizendo que a pessoa é linda(o), mas a pessoa pode se sentir ofendide, pois sua identidade de gênero não foi respeitada, mesmo que seja um elogio.

Não é um desrespeito a (ou crime contra) nossa língua falar todes em vez de todos?

Muitas pessoas argumentam que soa estranho e que talvez seja até um crime contra a língua tradicional. Sobre isso, gostaria de pontuar que nossa língua é viva e acompanha as transformações do mundo há centenas de anos. No latim havia três gêneros flexionais, o feminino, o masculino e o neutro. Entretanto, no processo de dialetação do latim para as línguas românicas ocorreu uma simplificação que ocasionou no desaparecimento do gênero neutro, reduzindo gênero a dois. Resumindo, a língua é totalmente passível de mudanças, se a sociedade assim o decidir.

Como usar a linguagem não-binária?

O mais comum talvez seja o uso da vogal “e” em vez de “o” ou “a” no final de palavras (Lindo/Linde, Todos/ Todes). Ou simplesmente retirar as vogais “o” ou “a” e substituir pelo “s” (Lind/Linds). No caso de palavras que terminam em “r” no masculino e “ra” no feminino (professor/professora) pode-se usar o “e” também (professore). Há ainda os sistemas Elu (elu/delu) e o sistema El (el/del/nel/aquel).

Se você quiser saber mais, pode acessar aqui um guia com orientações para inclusão linguística de pessoas trans, que acaba de ser lançado no Brasil pela Babbel e Transempregos.

O que evitar na linguagem não-binária?

O uso de “x” ou “@” para neutralizar o gênero de palavras – como, por exemplo, “todxs” ou “[email protected]” – funciona na escrita, porém falha na leitura, oralidade e audição. Além disso, a substituição por “x” ou “@” pode dificultar o uso de softwares de leitura através de som, fundamentais para pessoas com deficiências visuais ou com dislexia.

Toda pessoa não-binária adota linguagem não-binária?

Não. Nem todas as pessoas não-binárias usam pronomes neutros, pois isso não é uma regra;, pode variar de pessoa pra pessoa. O que você pode fazer é prestar atenção na forma como a pessoa se refere a si mesma, ver como ela se apresenta em alguma rede social ou simplesmente perguntar: “Como eu devo me referir a você?” ou “Quais pronomes você usa?”.

A regra de ouro para não ofender ninguém continua sendo perguntar antes de falar.

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Colunista Daniele Botaro

Daniele Botaro

Head de diversidade e inclusão da Oracle para a América Latina, ela também é embaixadora da Gaia+. Foi empreendedora, e sócia-diretora, da Impulso Beta, consultoria especializada em programas de diversidade.

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