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Friedman e Fink: opostos que se atraem?

Algumas leis da economia podem, sim, ser comparadas às leis da física. Por exemplo, a de que gestores de fundos e empresas têm responsabilidade fiduciária sobre os recursos de terceiros e a de que que indivíduos investem para ganhar dinheiro. Chicago não foi invalidada pelo fundo Blackrock

Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

27 de Setembro

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Artigo Friedman e Fink: opostos que se atraem?

Três décadas atrás o periódico nova-iorquino Spy reportava o ocaso de um dos maiores músicos britânicos de todos os tempos. Segundo fontes pouco fidedignas, Rick Astley, cantor e compositor inglês, fora supostamente condenado por autoplágio.

Após o lançamento de um grande sucesso em 1987, Astley, o rei do rickroll, passou a repetir as mesmas músicas com pequenas variações. O processo supostamente correra em segredo de justiça e portanto a sentença da corte britânica permanece em sigilo até hoje. Mas eu divago. Esse preâmbulo sobre autoplágio tem o propósito de funcionar como spoiler alert, uma vez que o cerne deste texto é uma série de copia-e-cola de meus artigos anteriores. 

Começando pelo famoso adágio proferido pela estátua de sir Winston Churchill que ponderava sobre o passador de pano ser aquele sujeito que alimenta o crocodilo na esperança de ser devorado por último. Bastou uma singela carta defendendo investimentos em sustentabilidade publicada no começo do ano por Larry Fink, presidente executivo da Blackrock, maior gestora de recursos financeiros do mundo, para que uma lista infindável de banqueiros, rábulas, jornalistas e passadores de pano resolvessem em uníssono contrapor tal carta à doutrina do economista e ganhador do prêmio Nobel de 1972, Milton Friedman. 

Esses fatos se conectam porque, em setembro de 1970, Friedman, à época professor da Universidade de Chicago, publicou um ensaio na revista do periódico americano The New York Times defendendo a primazia do lucro para o acionista ante a responsabilidade social dos negócios.

Segundo o manifesto redigido por Friedman, “The social responsibility of business is to increase its profits”. Para os passadores de pano justiceiros das mídias sociais, “Friedman perdeu, playboy”. Ocorre que Larry Fink na carta aos seus clientes argumenta explicitamente que a estratégia de investir em sustentabilidade objetiva lucros maiores no longo prazo. 

Para os meus amigos faria-limers – referência àquelas pessoas que orbitam física ou intelectualmente no condado sem xerife, na região da avenida Faria Lima na cidade de São Paulo, e misturam frases em inglês com português – aí vai a declaração verbatim do senhor Fink: “**including striving for more stable and higher long-term returns”.

ASG ou ESG

O acrônimo ASG é a tradução para o português da versão na língua oficial faria-limer para environmental, social and governance, ou seja, investimentos que consideram o impacto ambiental, social e de governança de empresas e empreendimentos. 

Nos últimos oito anos, o volume de investimentos rotulados ESG triplicaram, atingindo o montante aproximado de US$ 40 trilhões, sendo que a base total de ativos sob gestão no mercado de capitais mundial totaliza aproximadamente US$ 100 trilhões. 

A gestora americana Blackrock de Larry Fink é responsável por aproximadamente US$ 7,5 trilhões em investimentos. Fink é um formador de opinião no setor e, nas recentes comunicações da Blackrock ao mercado, argumentou em favor da análise de fatores ESG em investimentos como uma ferramenta de gestão de riscos. Esse tipo de diagnóstico é muito útil em estratégias de desinvestimento, por exemplo, que contemplem o princípio da precaução e de contenção de danos (avoid harm) – ambas as teses caras aos cientistas do clima e aos ambientalistas. 

Para ilustrar essa afirmação, considere um cenário no qual eventos derivados do fenômeno das mudanças climáticas possam ser quantificados e traduzidos em risco de investimento. Nesse contexto, e no cenário plausível de limites compulsórios às emissões de gases de efeito estufa, não faz sentido um fundo de investimentos manter ações de empresas que desenvolvam atividades associadas à mineração de carvão por exemplo. 

Deu no New York Times

Para muitos, o New York Times é o píncaro da mídia imperialista. Para mim o New York Times pode ser fonte de fake news às vezes, mas uma fonte na qual você pode confiar. A urgência do tema ESG mereceu cobertura extensiva do periódico nova-iorquino, incluindo o lançamento de um encarte comemorativo em alusão aos 50 anos do manifesto publicado por Milton Friedman no jornal. 

Existem algumas poucas leis na economia que, na minha opinião, podem ser comparadas às leis da física. Tal como proposto por Friedman, gestores de fundos ou empresas têm responsabilidade fiduciária sobre os recursos de terceiros. Indivíduos investem para ganhar dinheiro.

Aposto uma frota de Antonoves repletos de pelúcias do Baby Yoda que a meritória onda ESG não vai mudar a lei da gravidade.

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Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

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