fb

Inovação

5 min de leitura

Grandes corporações deveriam investir na criação de mercados

Como exemplo da IBM, grandes empresas podem gerar oportunidades criando unidades de negócios totalmente novas, com foco em novos mercados

Colunista Christimara Garcia e Efosa Ojomo

Christimara Garcia e Efosa Ojomo

21 de Setembro

Compartilhar:
Artigo Grandes corporações deveriam investir na criação de mercados

No Instituto Christensen, nossa pesquisa sugere que investir em inovações criadoras de mercado é uma peça crítica que falta no quebra-cabeça do desenvolvimento econômico para muitas economias em crescimento como o Brasil. Essas inovações são incrivelmente transformadoras porque não são apenas produtos ou serviços, mas sistemas inteiros que podem fornecer uma base para um crescimento robusto para organizações e regiões.

Por exemplo, quando o Dr. Devi Shetty construiu a Narayana Health (NH), seu objetivo era oferecer cuidados médicos de alta qualidade a baixo custo, como cirurgias cardíacas acessíveis ao indiano médio. Para isso, a NH teve que fazer investimentos que muitos hospitais ou sistemas de saúde estabelecidos não necessariamente fariam.

Em educação, a NH investiu e executou 19 programas de pós-graduação para profissionais de saúde, desde cirurgia cardiotorácica até tecnologia de laboratório médico. A NH também desenvolveu um produto de seguro chamado Yeshasvini. Por apenas 11 centavos de dólar por mês, um membro de uma família de baixa renda poderia obter um seguro de saúde que cobriria até US $ 2.200 em despesas de saúde.

A NH também investiu em laboratórios móveis de diagnóstico cardíaco (ônibus de grande porte equipados com equipamentos médicos, cardiologistas e técnicos) que viajavam para comunidades pobres. Todos esses investimentos são a espinha dorsal do sistema que permite à empresa oferecer cirurgias e serviços de saúde high-end a custos acessíveis.

O sistema que a NH construiu fornece uma forte base para uma atividade econômica robusta na Índia. Hoje, a empresa contrata mais de 11 mil pessoas e gera mais de US$ 440 milhões em receita anual.

Grandes corporações - por causa de sua riqueza de recursos - estão bem posicionadas para fazer os investimentos necessários em inovações criadoras de mercado como a NH. No entanto, muitas vezes não há um incentivo tão forte para elas fazerem isso, pois seus modelos de negócios são direcionados àqueles que já podem pagar produtos existentes no mercado. Infelizmente, isso deixa muitas oportunidades de criação de mercado inexploradas.

Ao criar uma unidade totalmente nova focada na identificação e desenvolvimento de inovações criadoras de mercado, as grandes organizações podem ir com mais confiança atrás dessas oportunidades que podem gerar não apenas vantagem competitiva, mas impacto sistêmico. É o caso da IBM, que explorou essas oportunidades em várias ocasiões.

Da big blue para pequenos PCs

A IBM, às vezes chamada de big blue, passou por inúmeras evoluções corporativas que ajudaram a empresa a criar vários mercados dentro do mercado de computadores e processamento de dados. Por exemplo, a IBM foi a única fabricante líder de computadores mainframe que também se tornou uma fabricante líder de microcomputadores. Na época, a IBM vendia computadores mainframe por cerca de US$ 2 milhões por máquina com margens brutas de cerca de 60%. Microcomputadores, por outro lado, vendidos por cerca de US$ 200 mil e tinham margens brutas de 45%.

A IBM foi capaz de fazer a difícil transição para vender microcomputadores, separando completamente os dois negócios. Enquanto a empresa fabricava seus computadores mainframe em Poughkeepsie, Nova York, e produzia microcomputadores em Rochester, Minnesota. Havia distância suficiente entre ambas as unidades de negócios para que a equipe de microcomputadores tivesse tempo suficiente para aprender a atender o novo e totalmente diferente mercado.

A distância também ajudou a equipe de microcomputadores da IBM a criar processos novos e mais alinhados com o novo negócio. Quando chegou a hora da transição para computadores pessoais, os quais a IBM vendeu por cerca de US $ 2.000 com margens entre 25% e 40%, a empresa repetiu o processo novamente e baseou a equipe de PC em Boca Raton, Flórida.

Enquanto a IBM produzia centenas de computadores anualmente, e microcomputadores às dezenas de milhares, a empresa também fabricava computadores pessoais aos milhões. Como resultado, a empresa precisava de um sistema muito diferente para atender a esse novo mercado de entusiastas de computadores pessoais. Para isso, a IBM, que historicamente projetou seu software e hardware, fez um investimento de capital próprio em uma empresa chamada Intel.

A Intel continuaria a fornecer os milhões de chips que a IBM precisava para o PC. No mais, a IBM também fez parceria com uma pequena startup de software chamada Microsoft para o sistema operacional e trabalhou com a Seagate para fornecer os drives de disco para as máquinas. Na época, como não havia um grande varejista que pudesse vender os PCs de forma lucrativa e competente, a big blue teve que criar uma rede de lojas de varejo.

Esses investimentos permitiram que a empresa fizesse a transição com sucesso de computadores mainframe para microcomputadores e para computadores pessoais, um feito que nenhum outro fabricante de computadores mainframe conseguiu. Para ilustrar a importância dessas mudanças para a IBM, considere isso; poucas pessoas podem nomear qualquer outro fabricante de computadores mainframe (ou micro) recentemente.

A IBM conseguiu isso porque cada vez a empresa criava uma unidade de negócios diferente que ia atrás do novo mercado criando oportunidades. E então ela isolou-se e liderou o novo mercado. No caso da IBM, a segregação geográfica criou distância suficiente do core business para dar às novas unidades de negócios tempo suficiente para crescer.

Vantagem competitiva

Ao investir em inovações criadoras de mercado, as grandes corporações têm a chance de criar vantagem competitiva, pois alcançam pessoas que não tinham acesso ao seu produto, abrindo um segmento totalmente novo de consumidores.

Uma das maneiras pelas quais as empresas podem fazer isso de forma mais eficaz é criando e separadas unidades de negócios, com os funcionários motivados a desenvolver inovações criadoras de mercado para não consumidores. Dessa forma, grandes corporações podem criar, com mais sucesso, mercados que tenham impacto significativo em suas perspectivas de crescimento futuro.

Gostou do artigo da Christimara Garcia e do Efosa Ojomo? Saiba mais sobre inovação e criação de novos mercados assinando nossas newsletters e ouvindo nossos podcasts na sua plataforma de streaming favorita.

Compartilhar:

Colunista

Colunista Christimara Garcia e Efosa Ojomo

Christimara Garcia e Efosa Ojomo

Efosa Ojomo é um pesquisador sênior no Clayton Christensen Institute, onde lidera a pesquisa do núcleo de Prosperidade Global. Já Christimara Garcia é a fundadora da Catalyze Innovations Initiative, um Action Tank com a missão de promover inovações criadoras de novos mercados no Brasil. Efosa e Christimara desenvolvem uma parceria entre o Clayton Christensen Institute e a Catalyze Innovations Initiative com o intuito de ilustrar o poder que as inovações criadoras de mercado têm sobre organizações e sociedade na promoção de desenvolvimento socioeconômico e da prosperidade.

Artigos relacionados

Imagem de capa A transformação digital de companhias fabris deve ser feita em etapasAssinante

Inovação

29 Fevereiro | 2024

A transformação digital de companhias fabris deve ser feita em etapas

Levar empresas industriais à era digital pode ser uma tarefa árdua – dificultada, muitas vezes, pelo uso de indicadores errados para avaliar o processo. Pesquisa revela que obtêm sucesso as organizações que fazem a transformação digital em três etapas, cada uma com métricas próprias. Conheça o método e veja como aplicá-lo

Nitin Joglecar, Geoffrey Parker e Jagjit Singh Srai
Imagem de capa A IA também polui – e a hora de lidar com isso é agoraAssinante

ESG

31 Janeiro | 2024

A IA também polui – e a hora de lidar com isso é agora

Se nada for feito, a inteligência artificial pode se tornar uma das maiores emissoras de carbono da economia global. Mas com boas práticas, estratégias eficientes, conscientização e, claro, maior uso de fontes renováveis de energia, esse quadro pode ser revertido. Veja como agir

Niklas Sundberg
Imagem de capa Digital aproxima serviços de saúde do formato varejistaAssinante

Inovação

31 Janeiro | 2024

Digital aproxima serviços de saúde do formato varejista

Com os avanços da tecnologia e a chegada de pesos-pesados do varejo ao ramo, que as clínicas de varejo vêm despontando para ajudar a deixar o setor de saúde mais dinâmico, integrado, digital e responsivo. Conheça as principais iniciativas, lá fora e no Brasil

Norberto Tomasini
Imagem de capa Comunidades de inovação em saúde: potencializando o efeito de rede

Inovação científica

17 Janeiro | 2024

Comunidades de inovação em saúde: potencializando o efeito de rede

Ecossistemas de inovação dependem de trocas de experiências, colaboração, conectividade e diversidade de talentos para prosperar | por Gustavo Meirelles e Lucas Zarconi

Gustavo Meirelles e Lucas Zarconi

4 min de leitura

Imagem de capa Espiral 5E: inteligência natural para a resolução de problemas complexos

Inovação

23 Novembro | 2023

Espiral 5E: inteligência natural para a resolução de problemas complexos

O processo de transformação contínua da natureza de explorar, visualizar, capacitar, executar e avaliar, tende a ser interrompido no mundo acelerado da atualidade. Mas é fundamental olhar para os outros E’s na espiral, especificamente explorar e visualizar

Katsuren Machado

4 min de leitura

Imagem de capa Use design salutogênico e value-based health care para ambientes de saúde

Inovação

22 Novembro | 2023

Use design salutogênico e value-based health care para ambientes de saúde

Abordagem inovadora cria espaços que promovem e mantêm a saúde e o bem-estar, além de melhorar significativamente a qualidade dos cuidados de saúde e a experiência do paciente. Hospitais, clínicas e similares vêm se beneficiando com a aplicação do design salutogênico e VBHC

Lorí Crizel

3 min de leitura