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Inovação aberta

6 min de leitura

Inovação aberta: origem, benefícios e formatos

No conjunto de estratégias de inovação das empresas, a inovação aberta é uma alternativa complementar

Colunista Maximiliano Carlomagno

Maximiliano Carlomagno

31 de Outubro

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Artigo Inovação aberta: origem, benefícios e formatos

O esporte imita a vida. Várias são as lições do esporte para o nosso dia a dia e, mais especificamente, para o contexto de negócios. O Athletic Bilbao, por exemplo, é um clube de futebol espanhol da cidade de Bilbao. O time é um símbolo da identidade basca, por não permitir que atletas não nascidos, não desenvolvidos ou sem ascendência no País Basco possam vestir sua camisa. O último título do campeonato espanhol da equipe foi em 1984.

A escolha estratégica do Athletic Bilbao, de abrir mão de recursos externos, parece a decisão de determinadas empresas sobre como gerenciar seus processos de inovação. Será que um time pode abdicar de competências e habilidades externas se quiser ganhar os principais campeonatos?

A história da inovação corporativa

A inovação é o mecanismo que as empresas têm para se colocarem à frente de seus competidores no campeonato mais desafiador: o mercado.

No entanto, a forma de inovar evoluiu ao longo dos tempos. A inovação corporativa se desenvolveu em ondas. A primeira foi marcada pela figura do gênio inventor e de grandes empreendedores como os emblemáticos casos de Thomas Edison, na GE; Henry Ford, na Ford; e Alfred Sloan, na GM. A segunda onda foi marcada pela estruturação de grandes centros de pesquisa e desenvolvimento, como o PARC, da Xerox; e o Bell Labs, da AT&T. A terceira onda difundiu a ideia do intraempreendedor e do caráter democrático e distribuído da inovação, simbolizado por empresas como a 3M. Em 2003, emergiu a visão de inovação aberta, a partir do trabalho do professor Henry Chesbrough.

O trabalho de Chesbrough ilustrou como uma empresa menor, no caso a Cisco, suplantou uma gigante como a Lucent. Enquanto a gigante se valia da estrutura do Bell Labs, herdada da cisão com a AT&T, a Cisco se alavancava no relacionamento com startups externas para ter acesso a novos conhecimentos, acelerar o time-to-market e compartilhar risco no desenvolvimento de novas soluções.

Esse caso não é exclusividade de empresas de tecnologia. Em diversas outras indústrias como farmacêutica, serviços financeiros, entretenimento, mídia e muitos outros, há empresas buscando potencializar sua capacidade competitiva por meio da inovação aberta.

Inovação fechada e inovação aberta

No modelo de inovação fechada a empresa aposta na estratégia de inventar, desenvolver e comercializar suas próprias ideias usando recursos internos. No modelo de inovação aberta a empresa comercializa suas próprias ideias e de terceiros e utiliza os conhecimentos e recursos externos para potencializar suas soluções. Segundo a visão mais atualizada de Chesbrough “inovação aberta é um processo de inovação distribuído baseado em fluxos de conhecimento gerenciados intencionalmente através das fronteiras organizacionais, usando mecanismos pecuniários e não pecuniários alinhados com o modelo de negócios da organização”.

Benefícios da inovação aberta

Os principais benefícios da inovação aberta envolvem a capacidade de acessar recursos além daqueles dominados pela empresa. Com isso, a organização acelera o tempo de desenvolvimento e execução dos projetos e compartilha os riscos das iniciativas de inovação.

A inovação aberta é uma forma de acessar recursos que a empresa não tem. Esses recursos podem ser conhecimentos técnicos de um pesquisador residente na universidade. Podem ser tecnologias diferenciadas de uma startup a ser conectada ao seu produto como um serviço digital. A inovação aberta amplia a base de conhecimentos da empresa para além de suas fronteiras. Ela redefine os limites da empresa e permite que a organização se alavanque agregando habilidades e conhecimentos de agentes externos. As tecnologias de comunicação, transação e gestão reduziram o custo desse tipo de acesso e permitem que a empresa faça esse tipo de movimento em escala.

A inovação aberta também é uma forma de ganhar velocidade. Quando uma empresa incorpora a tecnologia de outra empresa para o desenvolvimento de seu produto é como se ela pegasse um atalho. Ao invés de iniciar uma maratona na linha de largada, ela inicia do vigésimo quilômetro. Isso se traduz em maior velocidade de desenvolvimento e comercialização da solução, o que impacta diretamente no resultado financeiro ao antecipar os fluxos de caixa futuros.

A inovação aberta é uma forma de compartilhar riscos. Projetos de inovação enfrentam alto nível de incerteza. Empresas são formadas por pessoas que têm o que Daniel Kahneman denominou de aversão a perda, nossa tendência a preferir não perder do que ganhar. À medida que uma empresa incorpora outros agentes no processo de invenção, desenvolvimento ou comercialização, compartilha com eles os riscos dessa iniciativa. Isso faz com que consiga fazer mais projetos e assumir menor nível de risco.

Práticas de inovação aberta

Nos últimos cinco anos, com o boom do ecossistema de startups, houve uma compreensão inadequada de que inovação aberta é sinônimo de relacionamento com startups. Não é. Inovação aberta se manifesta de diversas formas. Cocriação com clientes. Parceria com fornecedores. Relacionamento com universidades. Consórcio de pesquisa entre empresas concorrentes. Corporate Venture capital. Licenciamento de tecnologias. Spinoffs. Essas manifestações são também chamadas de práticas.

Inovação aberta com startups

Uma das práticas mais frequentes de inovação aberta, como enfatizado na experiência da Cisco no enfrentamento da Lucent, é o relacionamento com startups. A Ambev, considerada a melhor empresa no relacionamento com startups no Brasil, fez mais de 350 negócios em 2021, desde uma simples contratação de um projeto piloto até um investimento minoritário.

Segundo dados da 100 Open Startups, temos mais de 4 mil empresas estabelecendo relacionamento com startups no Brasil. Desde uma indústria de alimentos que contrata uma solução de automação de linha de produção de uma startup que usa IoT e inteligência artificial até um laboratório farmacêutico que faz uma parceria com uma startup que tem uma plataforma digital de aderência a medicamentos crônicos por meio de celular.

Essa prática se expandiu em função de 3 circunstâncias:

1. Crescimento do volume e qualidade das startups nacionais: são mais de 20 mil startups de diversos tipos e estágios de maturidade no ecossistema brasileiro.

2. Consolidação do entendimento das ameaças e oportunidades da transformação digital: existem mais de 240 milhões de smartphones no Brasil e foram aplicados R$ 45 bilhões em capital de risco.

3. Codificação de um conjunto de formatos de relacionamento com alinhamento de interesses entre as partes: práticas de design thinking, lean startup e open innovation têm sido disseminadas em universidades, escolas de negócios e cursos online.

Sobre os formatos de relacionamento entre corporates e startups há diferentes categorizações disponíveis. A Innoscience adaptou versões da Nesta e da 500 Startups para a realidade brasileira e categorizou 6 tipos: eventos, incubação, aceleração, contratação, parceria e investimentos.

1. Eventos: Iniciativas de aproximação e desenvolvimento de soluções por parte de empreendedores para problemas específicos de corporações.

2. Incubação: Oferecimento de serviço de suporte e espaço físico para os primeiros passos da startup.

3. Aceleração: Programas de aporte de capacitação, mentoria e capital em troca de equity a um grupo de startups.

4. Contratação de serviços: Programas de conexão para realização de pilotos para a startup ter a corporação como cliente.

5. Parcerias: Iniciativas de desenvolvimento conjunto de soluções para determinado tema/problema em diferentes formatos jurídicos.

6. Corporate Venture Capital (CVC): Investimento de capital da empresa ou fundo separado com vistas a criação de novos negócios para retorno financeiro ou estratégico.

Cada uma dessas formas de relacionamento se destina para um objetivo estratégico específico. A inovação aberta é uma alternativa complementar no conjunto de estratégias de inovação das empresas. Os benefícios e práticas detalhados formam o racional e as alternativas de execução. Uma dessas práticas, o relacionamento com startups, cresce de forma significativa e apresenta diferentes formatos de execução.

Para vencer o campeonato, não dá pra abdicar de recursos externos que possam fazer a diferença.

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Colunista

Colunista Maximiliano Carlomagno

Maximiliano Carlomagno

É sócio-fundador da Innoscience, consultoria de inovação corporativa que trabalha com empresas como Roche, Coca-Cola, Duratex, Hypera Pharma. SLC Agrícola, Sicredi, M. Dias Branco, Braskem, Nestle, Ipiranga e Avon. É autor do livro “Gestão da Inovação na Prática”.

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