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Momento Kodak

Ou algumas ideias para fazer sua empresa realmente durar mais, entre as quais, colocar filósofos no conselho

Colunista Augusto Dias Carneiro

Augusto Dias Carneiro

17 de Janeiro

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Artigo Momento Kodak

O titulo acima é uma referência a um bordão de propaganda da Kodak nas décadas de 1950 e 1960, sempre acompanhado de foto colorida de criança soprando velas de aniversário, noiva jogando buquê, ou um casal em férias visitando a Torre Eiffel. Poderia ter escolhido outra empresa, em particular uma que vimos desaparecer de fato, como Atari, Compaq ou Blockbuster. (Sim, porque a Kodak está falimentar desde 2012, mas não acabou.)

Mas a Kodak é eloquente.

Recentemente a empresa fez uma manobra inteligente ao doar seu acervo de imagens para o (até então insolvente) fundo de pensão dos seus ex-funcionários. E no momento produz descartáveis para a guerra à Covid-19. Mas, parafraseando Drummond, hoje não passa de um retrato na parede.

A Fuji, por outro lado, depois de competir direto com a Kodak por décadas, vai bem, obrigado. Acaba de comprar uma fatia substancial da Xerox e pretende comprar a Hewlett-Packard. Quem sabe pretende criar um Jurassic Park de empresas...

O que torna uma empresa longeva?

Como o resto da literatura sobre o assunto, esta é uma obra em andamento, mas posso com razoável segurança indicar duas referências importantes:

  • O trabalho de Geoffrey West no Santa Fe Institute (SFI). A Strategy+Business, revista da PwC, traz uma entrevista sensacional com ele. E recomendo com entusiasmo o livro dele (embora lide com seres vivos e cidades melhor que com empresas) Scale: The Universal Laws of Life and Death in Organisms, Cities and Companies.

  • O livro de Rita McGrath Seeing Around Corners: How to Spot Inflection Points in Business Before they Happen, que já mencionei em coluna anterior (com um erro: atribuí coautoria a Clayton Christensen, que na realidade só escreveu o prefácio).

Geoffrey West focaliza a escalabilidade, termo da moda sobre o qual se fala muito mas se entende pouco. Profissionais de venture capital perguntam: seu modelo de negócio é escalável? Ou seja, quando a empresa cresce, sua infra cresce junto? No livro, as correlações estatísticas entre empresas e seres vivos são impressionantes. Afinal, sempre suspeitamos que empresas às vezes comportam-se como seres vivos!

Muita gente acha que focar no crescimento permanente de uma empresa é o segredo da longevidade. Geoffrey West nos mostra em seu livro que, neste mundo ESG de ênfase em sustentabilidade, é melhor (1) buscar a escala ideal que ponha a empresa em permanente equilíbrio com seu ambiente de atuação e (2) a empresa deve permanentemente buscar a inovação, e saber reinventar-se na hora certa (aqui entra o livro da Rita McGrath). Como inovação (que começa com intuição) é um tema com vida própria, dedicarei coluna futura ao tema.

Outro tema importante é a distinção que Geoffrey West faz entre empresas que sumiram nas fusões & aquisições (M&A, na sigla em inglês) mas continuam a existir (partes do “DNA” de cada empresa envolvida de alguma forma sobreviveram) e empresas que sumiram porque faliram. Eu escrevi “importante” por duas razões:

A primeira é um argumento “antes”. Buscar ser vendida pode ser uma estratégia de sobrevivência válida para uma empresa com demanda saudável por seus produtos/serviços mas sem os ingredientes (qualidade da gestão, alcance geográfico, folego financeiro, etc) para prosseguir sozinha, e

A segundo é um argumento “depois”. 45% das M&A não dão certo, se calcularmos pelo critério usado pelos bancos de investimento: o valor de mercado da empresa resultante tem que exceder a soma do valor de mercado das duas empresas antes da transação. Ou seja, é mais ou menos como tirar cara-e-coroa (50%-50%)...

Como fazer para que a sua empresa seja longeva?

Por lidar com escalabilidade e longevidade de empresas em níveis agregados, o livro de Geoffrey West não lhe será muito útil diretamente. Embora seja relevante sabermos que metade das empresas não atingem seu 10º ano de vida, e este dado varia pouco de um pais para o outro, isso pouco ou nada nos diz sobre como fazer nossas empresas durarem bastante – e durarem em 2021.

Mas, sem querer, West nos passa uma dica: as equipes de pesquisa e ensino do SFI são multidisciplinares, e o intercâmbio de professores e pesquisadores entre o SFI e outras universidades também. Profissionais de outras disciplinas trazem um angulo novo para lidar com as complexidades e imprevisibilidades do mundo de hoje. No SFI são biólogos lidando com temas urbanos, matemáticos com temas políticos, e economistas com temas ambientais.

Essa ideia não é nova: quem se lembra do termo “renascentista” aplicado a pessoas ecléticas? E os bancos de investimento sacaram há mais de uma década que físicos fazem bonito no mercado de capitais!

Então, além do que escrevi acima sobre permanentemente escanear o ambiente ao redor da sua empresa, buscando:

• Atingir um tamanho onde ela não seja nem grande demais nem pequena demais para atender seu público-alvo.

• Identificar e lidar com as variáveis exógenas (nome bonito para oportunidades e ameaças que você não tem como controlar diretamente) e tirar proveito delas com novos produtos/serviços que tenham sinergia (idealmente, visíveis para seu público-alvo) com sua atividade atual.

• Contratar, onde possível, pessoas de disciplinas subrepresentadas na sua empresa. (Acréscimo meu.) E ponha no seu conselho de administração ou consultivo pessoas de disciplinas ausentes dentro da empresa. Sobre isso, eis uma curiosidade: muitas empresas francesas têm um filósofo no conselho. Por que será?

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Colunista Augusto Dias Carneiro

Augusto Dias Carneiro

Coach, headhunter, autor, mediador e board member, Augusto Dias Carneiro é sócio da Zaitech Consultoria. Autor de Guia de Sobrevivência na Selva Empresarial.

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