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Diversidade e inclusão

4 min de leitura

O Brasil é um avião...

... que está decolando com apenas uma das turbinas ligada. Num país onde menos de 7% de negros e negras ocupam posições de gerência nas maiores empresas brasileiras e menos de 4,3%, posições executivas, essa reflexão é obrigatória. No mês da consciência negra, avalie o que acontece na sua empresa

Colunista Daniele Botaro

Daniele Botaro

12 de Novembro

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Artigo O Brasil é um avião...

Ouvi a frase que dá título a este texto do CFO de uma grande multinacional, quando ele falava sobre o desperdício de talentos negros no Brasil. Ele se referia ao cenário de que apesar de 54% da população brasileira ser negra temos menos de 7% de negros e negras em posições de gerência nas maiores empresas brasileiras. Quando observamos o quadro executivo, o número cai para 4,3%. A herança amarga de sermos o último país do mundo a abolir a escravidão e a maneira com que as coisas foram conduzidas, nos traz para um panorama de racismo estrutural que persiste até hoje.

Você já se perguntou o que aconteceu em 14 de maio de 1888, um dia após a famigerada assinatura da Lei Áurea? Para onde foram os escravos negros libertos? Onde foram morar? Onde foram trabalhar? Eles foram para a escola? A verdade é que os livros só contam a história até o dia 13. Não foram criadas políticas de inserção dos negros recém-libertos no mercado de trabalho ou na educação e os reflexos são sentidos até hoje. Entre os jovens negros de 18 a 24 anos, por exemplo, apenas 12,8% são estudantes de instituições de ensino superior. 

Um estudo publicado na Folha de S. Paulo utilizando dados do Enade analisou o desempenho de 252mil estudantes (cotistas e não-cotistas) entre 2014 e 2016. Em 31 cursos os cotistas têm desempenho 5% menor que os não cotistas, mas em outros 27 cursos o desempenho dos cotistas é 5% maior do que os não cotistas. A grande questão é que sem a reserva de vagas, os estudantes cotistas provavelmente nem estariam na universidade pública, pois teriam sido ultrapassados no processo seletivo por alunos de colégios particulares. Por isso e só por isso é que importante ter a ação afirmativa em caráter transitório para reparar a desigualdade, como diz a empresária Luiza Helena Trajano.

Formação é só uma parte da equação. O papel das empresas envolve geração de oportunidades. Em um treinamento de diversidade para líderes aqui na Oracle, uma gerente lamentou que não haviam crianças negras na escola onde seu filho estudava e um dos nossos diretores disse: Se não geramos oportunidades para os pais e mães desses alunos nas nossas empresas, como eles terão condições de incluir seus filhos nas escolas dos nossos filhos?

Pensando nisso, deixo aqui uma reflexão. Imagine uma empresa com 1000 funcionários e que hoje tem 2% de colaboradores negros (cerca de 20). Se essa empresa realizar 200 novas contratações por ano e se apenas 10% (eu disse 10%) dessas contratações forem de profissionais negros, em um ano, o número de colaboradores negros terá dobrado. Sem cotas, mas com um plano estratégico e consistente de desenvolvimento desses colaboradores e da criação de um banco de talentos diversos, sem falar no engajamento e apoio principalmente da alta liderança. 

A Oracle assim como outras empresas tem se engajado em iniciativas de mentoria e capacitação de profissionais negros, mas também investido na aproximação com esse público que durante muito tempo, não se viu representado nesses espaços e por isso ainda hoje não se vê fazendo parte dessas realidades. No último processo seletivo de estágio, no qual utilizamos vídeo entrevistas às cegas (sem informações de candidatos, utilizando vídeos borrados e vozes alteradas), tivemos poucos candidatos negros. Apesar de termos mais de 7.000 inscritos, apenas uma pequena quantidade de candidatos foram adiante no processo e enviaram seus vídeos, talvez não acreditando que teriam uma chance. Nosso papel como empresa é a de trabalhar nossa marca empregadora inclusiva, aproveitando conferências como Juntos e Empodera para nos conectar e aprender como avançar.

E por mais que possa parecer justiça social, na verdade as empresas já começaram a perceber que inclusão e diversidade são uma fonte de vantagem competitiva e, mais especificamente, uma alavanca essencial de crescimento. Só para terem uma ideia, segundo estudos da consultoria McKinsey que analisaram diversidade racial e cultural em seis países verificou-se que as empresas com as equipes executivas de maior diversidade étnica têm probabilidade 33% maior de superar seus pares em termos de lucratividade e 35% de performance superior que empresas sem diversidade racial. 

Aproveitando o mês da consciência negra, vale a pena a reflexão de onde poderíamos estar economicamente e socialmente como país, se aproveitássemos o potencial de todos os nossos talentos. Todos.

“Justiça não significa que todos devam receber as mesmas coisas, justiça significa que todos recebam o que é necessário.” (Rick Riordan)

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Colunista

Colunista Daniele Botaro

Daniele Botaro

Head de diversidade e inclusão da Oracle para a América Latina, ela também é embaixadora da Gaia+. Foi empreendedora, e sócia-diretora, da Impulso Beta, consultoria especializada em programas de diversidade.

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