fb

Sustentabilidade

3 min de leitura

O petróleo é nosso

Evidências apontam que o petróleo extraído do pré-sal brasileiro apresenta baixa intensidade de carbono em comparação às reservas exploradas em outras regiões do planeta, podendo contribuir para o combate às mudanças climáticas. Mas também para a exploração do nosso petróleo

Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

12 de Junho

Compartilhar:
Artigo O petróleo é nosso

O orçamento de carbono proposto pelo painel de especialistas em mudanças climáticas da ONU (IPCC) estabelece um limite máximo de emissões em toneladas de CO2 acumuladas na atmosfera terrestre – um caminho sem volta. Uma vez superado esse limite, os efeitos deletérios das mudanças climáticas se agravarão, comprometendo de maneira eventualmente irreversível a integridade do planeta.

De acordo com o relatório publicado em 2021 pelo IPCC, o orçamento de carbono do planeta é de 420 bilhões de toneladas de CO2, para uma probabilidade de 67% de aumento de temperatura da Terra limitada em 1,5°C. Ou seja, se a humanidade estourar o orçamento de carbono, existe 67% de probabilidade de nos depararmos com um cenário no qual o aumento da temperatura da superfície terrestre extrapole o limite incremental considerado seguro de 1,5 °C.

Dado que as emissões globais líquidas de todas as atividades humanas totalizaram aproximadamente 43 bilhões de toneladas de CO2 em 2019, nesse ritmo, nós, terráqueos, contávamos à época com, no máximo, dez anos para esgotar o orçamento de carbono do planeta.

Vale registrar que mesmo as análises científicas mais rigorosas embutem margem de erro relevante dadas as incertezas associadas a fenômenos geofísicos ainda pouco conhecidos, tal como o temido efeito de retroalimentação nos ecossistemas terrestres. Por exemplo, não existe modelo preditivo robusto para o comportamento das correntes marítimas em caso de degelo do Ártico retroalimentando o aumento da temperatura da superfície do planeta.

Com isso, em todos os cenários traçados pelo IPCC, observa-se uma condição precedente para a estabilização da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera terrestre: o consumo de combustíveis fósseis precisa diminuir significativamente. O problema é que não existe tecnologia capaz de substituir de maneira eficiente, em larga escala e no curto prazo todo o aparato construído pela indústria do petróleo. Basta verificar a participação das fontes renováveis no consumo de energia primária global: nos últimos 30 anos, o consumo total de combustíveis fósseis diminuiu apenas quatro pontos percentuais, passando de 86% para 82% da energia consumida globalmente. Parafraseando: nos últimos 30 anos, mais de 80% de toda a energia consumida no mundo foi fornecida pela queima de óleo combustível, carvão e gás natural. Em resumo, barrando o advento de alguma tecnologia disruptiva, não existe a menor possibilidade de transição energética ordenada sem a participação do petróleo na matriz energética global.

A baixa intensidade de carbono do petróleo brasileiro

Se é fato que o Brasil perdeu a licença social para desmatar, não me consta que o nosso País tenha perdido a licença social para explorar petróleo. Sempre vale ressaltar que os acordos climáticos começam ambientais e terminam acordos comerciais. O jogo é bruto e nós brasileiros precisamos usar nossas vantagens comparativas para aumentar o padrão de vida material da nossa população. O jogo é bruto e recordar é viver: Barack Obama, o inquilino mais altruísta da Casa Branca, espionou a presidente Dilma Rousseff aparentemente em busca de segredos industriais da Petrobras.

Existem evidências de que o petróleo extraído do pré-sal brasileiro apresenta baixa intensidade de carbono quando comparado às reservas exploradas em outras regiões do planeta. Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a intensidade de carbono média do petróleo offshore brasileiro é aproximadamente 14 Kg de CO2/barril ante 27 Kg de CO2/barril produzido na Arábia Saudita. Ou seja, confirmada a premissa da ANP e ceteris paribus (“tudo o mais constante”, na tradução do latim para o português) a demanda global por energia, explorar petróleo nas bacias marítimas brasileiras contribui com o combate às mudanças climáticas. Já em relação à exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas, faço minhas as palavras do meu economista favorito, o americano Thomas Sowell: um empresário só tem duas maneiras de contar a verdade - anonimamente ou postumamente.

Compartilhar:

Colunista

Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

Artigos relacionados

Imagem de capa A importância do "S" na estratégia ESG

Sustentabilidade

29 Fevereiro | 2024

A importância do "S" na estratégia ESG

Líderes têm o desafio de colocar o pilar social na ordem do dia. Nova pesquisa Latam mostra as oportunidades que começam com os próprios colaboradores

Denise Turco

5 min de leitura

Imagem de capa Como ESG e agressividade tributária influem em valuationAssinante

Sustentabilidade

19 Dezembro | 2023

Como ESG e agressividade tributária influem em valuation

Como o mercado se comporta, simultaneamente, em relação à agressividade tributária e às práticas de sustentabilidade das empresas? Uma análise de empresas listadas na B3 entre 2016 e 2021 sugere que, quanto maior a pontuação em ESG registrada pela organização, mais impostos ela recolhe. Faz parte do perfil dessas empresas evitar riscos fiscais e de reputação desnecessários. Leia o artigo campeão do Prêmio ESG - FAMA Investimentos

Jusceliany Rodrigues Leonel Correa, Valcemiro Nossa, Silvania Neris Nossa e Carlos Eduardo de Freitas
Imagem de capa Um rating ESG de gestores de ativos pode mudar tudoAssinante

Sustentabilidade

19 Dezembro | 2023

Um rating ESG de gestores de ativos pode mudar tudo

Mensurar as ações sustentáveis de uma empresa não é fácil, e isso às vezes acaba abrindo a porteira para o “greenwashing”. Mas é possível estimular que as organizações, de fato, transformem suas culturas e adotem boas práticas de ESG. Uma solução pode ser um novo índice de avaliação para gestores de ativos que leve em conta essa necessária mudança de paradigma. Leia o artigo vice-campeão do “Prêmio ESG - fama re.capital 2023”

Leonardo Augusto Dufloth
Imagem de capa A COP, as lentes e o maior dos dilemas

Sustentabilidade

01 Dezembro | 2023

A COP, as lentes e o maior dos dilemas

A prestação de contas da Conferência do Clima de Dubai, que começou ontem, vai deixar claro: as coisas estão indo mal no combate ao colapso climático e o dilema principal está longe de ter sido enfrentado. Mas acompanhar a COP pode ser útil para acelerar conscientização e mudanças

Viviane Mansi

4 min de leitura