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Sobre Michael Corleone e o risco

Nem a pandemia nem as mudanças climáticas são cisnes negros, mas a chance de sobrevivermos – a humanidade e, claro, os negócios – a uma série de eventos catastróficos tende a zero

Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

05 de Junho

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Artigo Sobre Michael Corleone e o risco

Na análise de risco de sistemas, o conceito do cisne negro – termo cunhado pelo engenheiro libanês Nassim Taleb – representa um evento inesperado e de grande magnitude, aparentemente inverossímil e portanto difícil de prever. O ataque às torres gêmeas em Nova York é um exemplo de evento cisne negro ou ponto fora da curva se considerarmos o conjunto de atentados terroristas catalogados pela história da humanidade. 

Por essa definição, a pandemia da Covid-19 não é um cisne negro. Embora o impacto da pandemia seja enorme, as consequências de uma refeição com pangolim e morcego não podem ser consideradas inesperadas, muito menos inverossímeis. Epidemiologistas conceituados e mesmo o programador de software Bill Gates – considerado até recentemente o maior cabulador de aula de todos os tempos, posto agora ocupado pela ativista Greta Thunberg – previram monotonamente a iminência de uma pandemia. 

Além disso, epidemias e pestes de todos os tipos já foram retratadas em diversos filmes, incluindo a maior película cinematográfica de todos os tempos, a saber: O Incrível Exército de Brancaleone. Pelos critérios do ineditismo e da verossimilhança, tampouco o fenômeno das mudanças climáticas seria qualificado como um cisne negro, dado que o aquecimento global está no radar da comunidade científica e de Hollywood há bastante tempo.

Quanto maior a incerteza maior é a certeza

Vale ressaltar que as evidências inequívocas da contribuição humana para a emergência climática e suas consequências, embora mapeadas, embutem margem de erro relevante dadas as incertezas associadas ao comportamento de fenômenos geofísicos ainda pouco conhecidos. 

Essa ambivalência não significa entretanto que a emergência climática deva ser melhor estudada até que a humanidade resolva como ataca-la. Pelo contrário, quanto maior a incerteza sobre o risco apresentado por um sistema, maior é a certeza do que se deve fazer. Por exemplo: nesta quarentena sem supermercado, quanto maior a incerteza sobre a data de validade de uma latinha de caviar, maior é a certeza de que você vai jantar miojo.

Não é cisne negro mas é risco existencial

O efeito do aquecimento global em sistemas complexos como o planeta Terra, pode acarretar uma série de eventos catastróficos para a humanidade. A probabilidade de sobrevivermos a um único evento catastrófico é grande, entretanto, a probabilidade de sobrevivermos a uma série de eventos catastróficos tende a zero. 

Usando um exemplo mais mundano: a probabilidade de você morrer jogando roleta russa uma única vez com um revólver igual ao do Michael Corleone é de aproximadamente 17%. A probabilidade de você morrer jogando roleta russa dezenas de vezes com um revólver igual ao do Michael Corleone é de 100%.

Seguimo Aquilante; lui conosce la via della fuga!

Aquilante é o nome do cavalo que guiava com maestria o herói Brancaleone da Norcia pelas cidades medievais dizimadas pela peste negra. O fato é, desde que o primeiro procarionte apareceu na superfície da Terra há aproximadamente 3,5 bilhões de anos,100% dos nossos ancestrais conseguiram sobreviver a todo tipo de peste e tiveram tempo suficiente para procriar. Acredito que a ciência, a tecnologia e os heróis italianos irão nos guiar pela rota de fuga das pestes e catástrofes que nos assolam desde sempre.

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Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

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