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Diversidade e inclusão

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Qual é o espaço dos homens brancos, heterossexuais e sem deficiência?

Nos dias atuais, homens que integram esse perfil são questionados e se questionam sobre lugar de fala, privilégios e meritocracia; mas qual é o espaço deles, afinal?

Colunista Daniele Botaro

Daniele Botaro

25 de Maio

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Artigo Qual é o espaço dos homens brancos, heterossexuais e sem deficiência?

Li esses dias um artigo que trazia uma pergunta cada vez mais frequente entre homens, brancos, heterossexuais e sem deficiência sobre as cobranças do mundo a respeito de seus comportamentos quanto à diversidade e inclusão.

A pergunta era a seguinte: “Por que justo na minha vez? Ser líder, há algumas décadas atrás, era bem menos desafiador quando falamos de competências de liderança inclusiva, mas nos dias atuais as exigências vão muito além do ‘respeite as pessoas que trabalham com você’”.

Esse grupo tem enfrentado dilemas complexos quanto a entender seu lugar em um mundo repleto de transformações e expectativas sobre seus papéis. Quando colocamos ainda uma lente adicional de cargos de liderança nesses homens, há uma cobrança ainda maior pelo exemplo que eles deveriam dar, visto as posições que ocupam.

Esses líderes, mesmo que bem intencionados, continuam às cegas, pisando em ovos e sem saber muito bem como agir no dia a dia. De um lado, lutam para não anular suas identidades, e de outro ainda não conseguem entender que o mundo não tem as mesmas regras daquele em que eles foram criados. Vou tentar listar aqui alguns dos principais pontos que escuto e observo nessa jornada de homens brancos, heterossexuais e sem deficiência quando o assunto é diversidade e inclusão.

Qual é meu lugar de fala?

É comum que esse grupo tenha muitas dúvidas sobre o que eles podem ou não falar ou fazer. Muitos ficam com medo de estarem invadindo o espaço das pessoas que pertencem aos grupos chamados minoritários e tomarem o protagonismo que deveria ser delas. E estão certíssimos. Mas a questão é que se nunca fazem parte da discussão, como aprendem e evoluem?

Por isso é importante compreender esse lugar de fala e saber como agir, inclusive usando-o para ser um aliado ativo. Um homem, branco, heterossexual e sem deficiência que buscou aprender sobre os desafios enfrentados por pessoas de outros grupos e que está no processo de amadurecimento sobre o tema, pode falar sobre racismo, machismo, LGBTQfobia e capacitismo. Ele não pode falar de racismo, machismo, LGBTQfobia e capacitismo, porque nunca teve experiência disso.

Além disso, ele não pode falar desse lugar, mas pode falar sobre o que aprendeu de cada um dos temas. E melhor, usar sua voz e sua posição para levar a mensagem a muito mais pessoas.

Isso é preconceito reverso

Criamos recentemente um programa de mentoria para mulheres e mais de 10 homens se inscreveram. Todas as comunicações e peças de divulgação traziam explicitamente a mensagem de que o programa era exclusivo a mulheres. Quando respondemos a esses homens que não se encaixavam nesse programa, mas que poderiam fazer parte de outros ou até mesmo de criarem outro programa, reclamaram que estavam sofrendo preconceito reverso.

É muito comum que pessoas sintam isso quando são excluídas de alguma oportunidade e, principalmente, quando trabalharam muito duro para chegar nas posições em que estão hoje. No entanto, quando falamos de gênero, cor e raça, orientação sexual e identidade de gênero ou deficiência física ou intelectual, falamos de pessoas que mesmo dedicando-se muito, acabam largando alguns metros atrás nessa corrida profissional.

Reconhecemos o esforço e a jornada de homens, brancos, heterossexuais e sem deficiência, que construíram suas carreiras com pouca estrutura inicial, como recursos financeiros e uma educação de qualidade, e fazendo muitos sacrifícios para chegar onde chegaram. Todavia, a cor da sua pele não foi uma barreira a mais, nem sua condição física, nem sua orientação sexual ou o seu gênero impuseram desafios extras nessa jornada.

Privilegiados, nós?

Quando falamos sobre privilégio e meritocracia é que a conversa esquenta de verdade. Custa muito a esse grupo entender o real sentido de privilégio, dado o que acabamos de discutir no tópico anterior. Ou seja, eles costumam pensar que o fato de terem se esforçado muito – e de que tiveram que fazer muitas concessões e sacrifícios para alcançarem o que têm hoje –, significa que não possuem nenhum tipo de privilégio.

E é realmente difícil pensar que temos privilégios, quando nossa sensação é de que demos o nosso melhor em termos de dedicação para conquistar o que temos. Assim, ao invés de discorrer sobre o conceito de privilégio, convido a todos para fazer uma reflexão sobre os exemplos que descrevo abaixo. Marque as opções que se aplicam a você e reflita sobre qual é o seu nível de privilégio na sociedade:

1. Eu não tenho que me preocupar em como me visto, para evitar atenção indesejada no trabalho;

2. Vejo várias pessoas que se parecem comigo em posições seniores de liderança;

3. Eu não evito entrar no elevador com um grupo só de homens;

4. Meu gênero não influencia nas minhas chances de ser contratado para um emprego;

5. As chances de eu sofrer assédio sexual no trabalho são tão baixas que são insignificantes;

6. Se não recebo uma promoção, não penso que é por causa da minha cor;

7. Na maioria do tempo, eu estou na companhia de pessoas da minha raça, no trabalho;

8. Não tenho que educar meus filhos para estarem cientes do preconceito contra a minha raça, para que fiquem seguros fisicamente;

9. Posso ter certeza de que, se pedir para falar com o "responsável", estarei diante de uma pessoa da minha cor de pele;

10. Posso facilmente comprar livros, brinquedos e revistas com pessoas da minha raça ilustradas;

11. Posso expressar afeto à pessoa que eu amo na maioria das situações sociais e não esperar reações hostis ou violentas dos outros;

12. Posso falar abertamente sobre meu relacionamento, férias e planejamento familiar com a minha liderança e colegas de equipe;

13. Posso viajar para qualquer país sem medo de ser preso, espancado ou morto por causa da minha sexualidade;

14. Tenho certeza de que falar sobre a minha sexualidade não vai mudar a forma como as pessoas me veem;

16. Sei que vou encontrar a infraestrutura necessária para trabalhar em qualquer empresa que eu quiser (banheiros, acesso ao prédio, etc);

17. Se eu decidir comprar uma casa nova, não preciso considerar acessibilidade um requisito essencial;

18. Estou certo que posso fazer compras sozinho, pois as lojas sempre terão acomodações adequadas para tornar minha experiência tranquila;

19. Posso ficar de mau humor sem que as pessoas atribuam isso à minha deficiência física;

20. Posso me sair bem em situações desafiadoras sem que me digam que devo ser uma inspiração para outras pessoas sãs;

21. Posso aceitar um emprego em uma empresa que cumpre as leis trabalhistas sem que alguém suspeite que consegui meu emprego por causa de minha deficiência.

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Daniele Botaro

Head de diversidade e inclusão da Oracle para a América Latina, ela também é embaixadora da Gaia+. Foi empreendedora, e sócia-diretora, da Impulso Beta, consultoria especializada em programas de diversidade.

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