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Revisite as decisões que você já tomou – Parte 2

Entenda como Noise, obra escrita por Daniel Kahnemann, pode nos ajudar a entender a influência do ruído na tomada de decisões pessoais e corporativas

Colunista Augusto Dias Carneiro

Augusto Dias Carneiro

16 de Agosto

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Artigo Revisite as decisões que você já tomou – Parte 2

Conforme prometi mês passado, a parte dois da nossa série lidará com o livro Noise, o mais recente de Daniel Kahnemann com coautoria de Olivier Sibony e Cass Sunstein. Como foco, este artigo procura auditar decisões que você e sua equipe já tomaram. No final, menciono outros tópicos que poderão ser úteis. Antes disso, preciso informar que em breve haverá uma tradução no Brasil para Noise, e que Kahnemann tem sólida reputação por aqui (em particular Rápido e Devagar). Já Sunstein tem plateia substancial entre nós por meio de Nudge.

Kahnemann dedicou seus mais recentes livros a analisar vieses que temos, independentemente de raça, cor, credo e profissão. O viés mais famoso e comum é consistentemente subestimarmos o prazo para entregar uma tarefa ou projeto. Em Noise, no entanto, o autor dedica sua escrita ao tema do ruído, ao erro aleatório. Portanto, não é tendencioso como ocorre nos vieses, que influenciam nos julgamentos, decisões e previsões que fazemos. O próprio Daniel explica a diferença entre viés e ruído em pouco menos de 9 minutos.

Ruído, em certos contextos, é até bem-vindo. Quando vemos o resultado de uma avaliação de vinhos, procuramos diversidade de opiniões. Nos piores vinhos, entretanto, preferimos unanimidade. Contudo, é inaceitável que, atualmente, médicos discordem tanto sobre a interpretação de imagens, juízes promulguem sentenças totalmente diferentes para o mesmo crime, médicos receitem medicamentos mais invasivos próximo ao final do plantão, e seguradoras apresentem tamanhas variações de prêmio para o mesmo risco industrial.

O livro de Kahnemann menciona um estudo em que o mesmo médico muitas vezes discorda consigo mesmo, quando analisa a mesma imagem em dias diferentes. E pasmem, as pessoas que vivem de identificar impressões digitais frequentemente discordam entre si.

Algumas iniciativas para reduzir ruído (e viés) saem pela culatra. Por exemplo, na concessão de crédito, lidar com preconceito racial via a substituição de humanos por software - que usa o CEP do requerente - acaba dando no mesmo.

Ruídos nas decisões corporativas

Em uma empresa, tomamos decisões o tempo todo. Algumas são quantitativas: estimamos qual a fatia de mercado que podemos obter até o final do próximo trimestre, bem como o valor futuro de uma ação, ou a taxa de câmbio em dezembro do ano que vem. Se formos otimistas demais, teremos produtos que não conseguimos vender (ou um título micado). Se formos pessimistas demais, pedidos sem condições de produzir e entregar (ou nos arrependeremos de não ter comprado uma ação).

Ainda no cenário quantitativo das decisões, uma seguradora convidada para apresentar proposta de seguro para uma fábrica e calcula o prêmio a partir de uma estimativa de possíveis danos futuros àquela fábrica. Se for muito otimista, pode ter prejuízo. Sendo muito pessimista, ela perderá a apólice para outra seguradora que ofereceu preço menor.

Outras decisões são qualitativas. Estamos, por exemplo, entrevistando candidatos para uma posição-chave, e cada entrevistador precisa imaginar cada candidato no pleno desempenho daquela função. Existem técnicas simples e eficazes para lidar com o viés de cada entrevistador. Mas o ruído - que todos os entrevistadores trazem para o processo - pode ser muito mais difícil de erradicar. Minimizar ruído em decisões de recrutamento será objeto de coluna futura, aliás.

Checagem de ruído

Uma auditoria de ruído, analisando as decisões que você e sua equipe tomaram, visa minimizar o ruído de decisões futuras. Escrevi “minimizar” porque tentar erradicar o ruído em uma empresa pode custar mais que o benefício, e pode engessar o processo decisório. Assim, segue um passo a passo para analisar as decisões. Mais detalhes são encontrados no apêndice A de Noise:

1 - Invente outro nome: auditoria de ruído pouco ou nada significa para quem não leu o livro. Pense em algo que contenha medir, eficácia, decisões e melhores condições de trabalho, principalmente pelo desconforto consciente e inconsciente que ruído traz;

2 - Comece por um departamento onde as pessoas tomam dezenas de decisões quantitativas por dia: manufatura, logística e qualidade são bons lugares para começar. Depois expanda para outras decisões quantitativas e, por último, lide com as qualitativas;

3 - Capriche na parte mais difícil: modelar o processo decisório. O processo deve contar com envolvimento e validação de quem decide. Se não refletir o que realmente acontece, seus resultados sofrerão consequências, e todos irão questioná-los;

4 - Se você vai contratar consultores externos, estes não devem passar de metade da equipe de auditoria;

5 - Certifique-se de que todos compreendam o que se espera. Mencione que, além de medir e reduzir o ruído, o estudo poderá gerar outras informações bastante uteis: o viés de cada um, processos irritantes que afetam a todos e a necessidades de treinamento.

Recomendo o livro, mas as 464 páginas podem ser leitura tediosa. A revista The Economist protestou, por exemplo, ao afirmar que um livro sobre ruído deveria ter menos ruído. Minimamente: o apêndice B da obra é para você e sua equipe lidarem com ruído enquanto decidem. E o apêndice C explica como minimizar o ruído em previsões de variáveis exógenas (inflação, taxa de juros, de câmbio) que sua empresa faz para depois plugar em orçamentos e projeções.

Gostou do artigo de Augusto Dias Carneiro? Confira a primeira parte da série escrita pelo colunista: aqui.Além disso, assine gratuitamente nossas newsletters e ouça nossos podcasts na sua plataforma de streaming favorita.

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Colunista

Colunista Augusto Dias Carneiro

Augusto Dias Carneiro

Coach, Headhunter, autor, e futuro mediador e board member, Augusto Dias Carneiro é sócio da Zaitech Consultoria e escreveu “Guia de Sobrevivência na Selva Empresarial”.

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