fb

6 min de leitura

Como enxergar – e ser – uma liderança emergente

Nosso maior desafio não é o novo coronavírus, mas reconhecer um tipo de líder que silenciosamente está abrindo caminhos melhores para nós nessa briga do passado com o futuro, e seguir seu exemplo

Colunista Thomas Eckschmidt

Thomas Eckschmidt

26 de Junho

Compartilhar:
Artigo Como enxergar – e ser – uma liderança emergente

Quando olhamos para fora, muitas vezes perdemos a esperança. Não por causa do novo coronavírus, não por causa do mau tempo, não por causa dos desafios econômicos, não por causa dos problemas sociais, nem mesmo por causa dos problemas ambientais. Nosso maior desafio é a falta de exemplos, de líderes, de pessoas que realmente estão aqui para dar um exemplo e abrir os caminhos para a nova realidade.

Recentemente tive uma conversa fechada com amigos dos Estados Unidos e a facilitadora gráfica que participava da sessão capturou uma mensagem de cada participante. No calor da conversa, não paramos para preparar frases de efeito, somos autênticos em nossas manifestações e ideais, principalmente porque era uma conversa sem audiência. Deu nessa imagem abaixo.

![Description: Texto preto sobre fundo branco

Descrição gerada automaticamente](https://mitsmr-public.s3.amazonaws.com/uploads/8cbd5105-f07c-4285-95e6-b6c3648bd288.jpeg)

É verdade. Muitos querem voltar para o que era antes, um lugar conhecido e seguro. Porém esse talvez seja o lugar mais perigoso que existe, porque está no centro do caminho que nos trouxe até aqui. O que está acontecendo no mundo hoje é um grande divisor de águas. O passado brigando com o futuro e estamos na guerra do presente. Aqueles que estão nos ajudando a criar esse desafio são parte de uma liderança emergente.

Sim, emergente. Ela emerge deste momento único, urgente, porque não podemos esperar. Essa liderança é calada, trabalha cuidando de seu ecossistema, está presente, reconhece seus valores pessoais que determinam suas decisões, tem um propósito pessoal claro que se manifesta e alavanca através das organizações que lideram.

A humanidade está carente de líderes. O que está acontecendo aqui e agora é uma consequência dessa carência. Nenhum dos nossos líderes atuais no mundo despertam empatia, cultivar o respeito, cuidam do próximo, ou tem uma proposta de convergência. Mas isso não significa que os líderes que precisamos não existam. Eles estão por toda parte. Estão em uma jornada de longo prazo. Nenhum deles tem está em uma jornada egocêntrica de curto prazo.

Características

Para você identificá-los e fortalecê-los (ou até ser um deles, quem sabe), vamos compartilhar algumas de suas características. Os líderes que estão emergindo para a nova realidade são aqueles que:

1. Conhecem o ecossistema em que operam. Eles entendem a interdependência e necessidade de gerar valor para todos os envolvidos. Entendem que as transações binarias entre duas partes são meramente utilitárias, e não geram um ganha-ganha verdadeiro, no longo prazo estas relações se desequilibram. Aqueles que pensam de forma sistêmica, envolvendo múltiplos stakeholders em suas relações, estão criando o novo ecossistema de negócios. 

Vamos a um exemplo: Algumas empresas estão mantendo seus funcionários, dizendo que não vão demiti-los, e na outra mão, estão estendendo os prazos de pagamento de seus fornecedores em mais de 50%. Não demitir na sua organização é bom, mas faz sentido isso sendo a causa de demissões em outras organizações?

Pense: você tomou decisões que preservaram a própria casa mas destruíram a vizinhança? 

2. Sabem como a sua organização opera. Essa liderança tem um propósito claro, entende por que a sua organização existe. Toma decisões que avançam a intenção de criar um mundo melhor através da organização que lideram. Criam comportamentos baseados em valores, geram uma cultura responsável que lidera a transformação de dentro para fora, sendo o exemplo para seu ecossistema de negócios.

Vamos para um exemplo: recentemente o CEO do AirBnB mandou uma carta aos seus funcionários anunciando que teriam que demitir 25% de sua forca de trabalho, mas o que estava no cerne dessa carta era o reconhecimento que haviam expandido para áreas que não eram efetivamente o core da organização, não era exatamente o propósito ao qual se dedicavam. (E, na crise, aquilo que não é a essência de uma organização perde valor.)  A carta é carregada de tristeza, pois se nota o arrependimento da liderança por ter perdido o rumo de sua organização. Talvez pela pressão de resultados de curto prazo, ou a necessidade contínua de ser maior, tenham-nos levado a perder-se no caminho de ser melhor. Ou talvez por uma questão de ego e não de ecossistema. São conjecturas, não sabemos ao certo, mas cada empresa deveria se investigar a respeito.
Pense: o que está tirando a sua organização de sua jornada?

3. Estão em constante aprendizado de autoconhecimento. O autoconhecimento leva cada um de nós para mais perto do nosso propósito pessoal. Talvez antes disso é reconhecer nossos valores pessoais, mas, para iniciar uma jornada de autoconhecimento, precisamos estar mais presentes. O mundo nos tira atenção por todos os lados, as notícias ruins constantes (geram mais atenção do que as boas, mesmo termos mais noticias boas que ruins), as notificações constantes do nosso celular e dos aplicativos (quanto aplicativos do seu celular não geram notificações, já parou para avaliar isso? Quase todos apitam o tempo todo.) Neste momento de quarentena, paramos. Pararam todos. O primeiro passo foi negar o acontecido, depois ficamos com raiva, aí começamos a barganhar, chegamos à depressão (a maioria de nós) e, por fim, nos conformamos e aceitamos uma nova realidade. Alguns pararam no meio desse processo e voltaram para o passado, mas outros estão indo até o fim.

Vamos a uma citação: Segundo Mark Twain, os dois dias mais importante de nossas vidas são o dia que nascemos e o dia que sabemos por quê. Gosto de incluir um terceiro dia: o dia que tomamos a coragem para viver o nosso porquê, nosso propósito pessoal. Você já parou para pensar quais são as suas motivações? Com base em que valores você determina os seus comportamentos? O que você faz quando ninguém está olhando? Tem ideia do que é o seu propósito pessoal? O que está tirando a atenção desse caminho de vida? Esse é um exercício diário. Liderança é como preparação física: se não praticar, você perde!

Pense: qual é a sua rotina de treinamento? 

De trás para frente

Agora, começando agora de trás para frente: se você está liderando uma organização, um grupo de pessoas, um departamento, todos devem estar esperando por suas respostas. Eis o convite: este é o momento de você demonstrar liderança emergente. Eis como:

  1. Sempre se apresente com CALMA, serenidade. A crise não é permanente, pode ser mais ou menos longa, mas as decisões com calma são sempre inteligentes. O ecossistema está olhando para você e a sua presença pode influenciar todos stakeholders.
  2. Projete CONFIANÇA para que as pessoas de diversos grupos de interesse te escutem e acreditem na sua mensagem. Se não, os seus planos podem não ter o impacto que precisa ter.
  3. Esteja presente, COMUNIQUE constantemente. Não se manifestar é uma forma bastante negativa de comunicação. A comunicação constante evita que as ideias ruins e negativas se disseminem de forma exponencial. 
  4. Sozinho não sairemos da crise, busque a COLABORAÇÃO com outros grupos de interesse (stakeholders) do seu ecossistema, inclusive dos seus colaboradores. As ideias estão por toda parte, precisamos escutar.
  5. Entenda que somo uma COMUNIDADE. Nossa empresa está dentro de um ecossistema de negócios. Temos que cuidar do nosso entorno para dar o exemplo de como liderar na crise.
  6. Tenha COMPAIXÃO, reconhecendo que as necessidades das pessoas são diferentes. Escutando e entendendo cada um dentro do nosso ecossistema, conseguiremos soluções melhores juntos.
  7. Atenção no CAIXA. O recurso financeiro ainda é o oxigênio de nossas organizações e do nosso ecossistema. Se parar de fluir no sistema – se uma área ficar sem oxigênio, por exemplo –, provavelmente perderemos um “membro” o que pode afetar   nossa habilidade de recuperação. Ajude o oxigênio a fluir por todo o ecossistema, com cuidado para não acabar.

Fica aqui meu convite para compartilhar suas práticas e também para se inspirar em práticas de negócios conscientes. Conheça o livro Conscious Business Manifesto publicado este ano e disponível na Amazon. Caso tenha interesse em uma cópia digital, entre em contato com [email protected].

Compartilhar:

Autoria

Colunista Thomas Eckschmidt

Thomas Eckschmidt

Cofundador e ex-diretor geral do movimento do capitalismo consciente no Brasil, Thomas Eckschmidt é autor de Conscious Capitalism Field Guide e outros livros práticos para implementar os fundamentos de um capitalismo mais consciente. É ainda cofundador e CEO da Conscious Business Journey, uma rede de consultores com o propósito de acelerar a transformação para um ecossistema de negócios conscientes e atua como conselheiro em diversas empresas.Em seu site www.CBActivator.cc, Thomas disponibiliza um e-book sobre como ativar a consciência da sua organização. Ele encabeça o podcast Capitalista.Consciente, encontrado nos principais tocadores.

Artigos relacionados

Imagem de capa Existe um jeito certo de fazer demissões?

Gestão de pessoas

18 Junho | 2024

Existe um jeito certo de fazer demissões?

Pode ser tentado agir rapidamente, em prol da eficiência. Mas o foco no ser humano é a chave para que uma mudança organizacional com redução da força de trabalho seja bem-sucedida

Sanyin Siang

3 min de leitura

Imagem de capa Fundamentos para RH: o grande orquestrador do trabalho humano

Gestão de pessoas

18 Junho | 2024

Fundamentos para RH: o grande orquestrador do trabalho humano

Descubra como a área de recursos humanos impulsiona o desempenho dos colaboradores e a performance das empresas, com insights da MIT Sloan Management Review Brasil

Redação MIT Sloan Management Review Brasil

23 min de leitura

Imagem de capa Deixe os funcionários definirem seu trabalho – o resultado pode surpreender

Artigo Xtended

14 Junho | 2024

Deixe os funcionários definirem seu trabalho – o resultado pode surpreender

Quando as pessoas têm liberdade para ajustar suas funções de acordo com seu talento, desbloqueiam a produtividade e a inovação

Benjamin Laker e Stefania Mariano

7 min de leitura