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Desenvolvimento pessoal

4 min de leitura

Somos três?

Você já parou para pensar quem é você no trabalho e fora dele?

Colunista Augusto Dias Carneiro

Augusto Dias Carneiro

16 de Novembro

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Artigo Somos três?

O tema dá o que pensar, desde como - conscientemente ou não - construímos uma “persona” diferente no trabalho, até o que uma empresa tóxica faz para robotizar seus colaboradores.

O seriado Ruptura (“Severance”, em inglês) na Apple+ é sobre pessoas que, por meio de uma cirurgia voluntária, adquiriram duas personalidades distintas, uma no trabalho, outra fora dele. No decorrer dos diálogos, as pessoas tratam como algo natural optar por esta cirurgia, objetivando – num futuro não muito distante – aumentar sua produtividade e, consequentemente, sua empregabilidade. Claro que na ficção científica os limites do verossímil são bastante ampliados, mas o sucesso da série (8.2 no ranking Internet Movie Database - IMDb) dá o que pensar para o resto de nós, mortais.

Existe uma substancial literatura sobre cada pessoa ter três personalidades diferentes. Prefiro o termo “modo”, menos carregado de viés cultural:

  • A que temos em casa, com família e amigos. Chamarei esta de natural.
  • A que adotamos no trabalho, resultado de anos e anos do condicionamento cultural de cada indivíduo sobre o que consideramos apropriado para sobreviver e progredir nas empresas. Adotei o termo adaptado, mas aceito sugestões se alguém tiver um melhor.
  • A que incorporamos quando estamos sob pressão. É normal e natural entrarmos em modo sobrevivência e desligarmos o resto. Pode ser resultado de eventos inesperados na empresa, na nossa vida familiar/social, ou até ante um prazo exíguo para entregar um trabalho. Cada um de nós tem uma capacidade diferente para passar mais ou menos tempo neste modo, que chamarei de estressado.

Peço aos leitores com formação em psicologia que relevem, pelo menos por alguns instantes, um modelo que é ao mesmo tempo simplista e bastante adotado pelas empresas nas suas decisões de recrutamento e desenvolvimento.

Certa vez, eu entrevistei um candidato que me pareceu um encaixe perfeito para a posição que o cliente me havia pedido para preencher. Com a intenção de apresentar sua candidatura, pedi para ele me indicar referências, pessoais e profissionais, as quais fui conferir. Assim descobri que era um executivo que mudava drasticamente de personalidade quando chegava ao trabalho. Pior, era uma simpatia com os superiores e pares, e um verdadeiro carrasco com os subordinados. Diante disso, o cliente optou por não prosseguir com esse candidato.

Alguns testes psicométricos lidam com isso. Meu favorito (Lumina Spark) levanta os três perfis acima, mas - em 2014 quando me credenciei para ministrá-lo e interpretá-lo - tive que jurar que não o usaria em decisões de recrutamento (e de fato só o utilizo no processo de coaching). Esta restrição, que também existe em muitos outros psicométricos (inclusive o Myers-Briggs Type Indicator - MBTI, o mais popular de todos), visa evitar que as empresas, ao perseguir um determinado perfil comportamental, acabem ficando homogêneas demais. Faz sentido porque onde todo mundo pensa igual ninguém pensa muito, não é mesmo?

Como exemplo, vejamos os resultados de Jorge (nome fictício) que navega entre os modos natural e adaptado. Alguns traços comportamentais que deveriam aumentar no ambiente trabalho e que, ao contrário, caem:

  • Confiável: cai de 60% para 12%.
  • Estruturado: vai de 74% para 18%.
  • Colaborativo: passa de 66% para 22%.

O índice espontâneo dele cai de 60% para 46% quando está no trabalho, o que é esperado. Já outros que esperamos que diminuam, no caso dele aumentam:

  • Demonstrativo: em casa é muito baixo, 1%, sobe para 23%.
  • Íntimo: aumenta de 92% para 96%.
  • Imaginativo: fica estagnado em 59%.

Outros quesitos são esperados que se mantenham (sociável, flexível, adaptável), ou até aumentem um pouco (competitivo), mas nada disso aconteceu com o Jorge.

Agora vamos comparar os três perfis dele. Vejo que quando estressado seus níveis de proposital, cauteloso e confiável aumentam muito, enquanto os de sociável e demonstrativo diminuem bastante. Tudo isso é desejável. Mas vejo também que seus níveis de radical e assume o comando são baixíssimos nos três perfis, enquanto seria preferível que subissem bastante no modo estressado. Confesso que o perfil dele é extremo.

Para quem quiser saber mais sobre Lumina Spark, há vídeos no YouTube com explicações curtas e longas sobre esse assunto. E para os psicólogos que estão na plateia, o site da empresa inclui toda a documentação de suporte técnico do psicométrico.

Encerro com quatro perguntas para sua reflexão adicional:

  • O que muda em seu comportamento quando está no ambiente de trabalho? A que você atribui isso?
  • Na sua opinião, qual é o seu nível de resistência para lidar com períodos prolongados no modo estressado?
  • Se tivesse que fazer uma apresentação para defender um projeto complexo e polêmico na sua empresa, você contaria com o apoio do Jorge?

Se houvesse um incêndio no prédio, você: a) Salvaria o Jorge? b) Esperaria que o Jorge lhe salvasse? ou c) Focaria em salvar-se?

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Colunista Augusto Dias Carneiro

Augusto Dias Carneiro

Coach, headhunter, autor, mediador e board member, Augusto Dias Carneiro é sócio da Zaitech Consultoria. Autor de Guia de Sobrevivência na Selva Empresarial.

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