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Vale do Silício não deve ser referência para inovadores brasileiros

Para mudar a realidade do mercado nacional e gerar impacto social, empreendedores e gestores de inovação do Brasil deveriam buscar empresas em mercados em crescimento, e não no Vale do Silício

Colunista Christimara Garcia e Efosa Ojomo

Christimara Garcia e Efosa Ojomo

22 de Outubro

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Artigo Vale do Silício não deve ser referência para inovadores brasileiros

O Vale do Silício é mundialmente conhecido por produzir muitas das empresas mais inovadoras do mundo, por isso é compreensível que empreendedores globais procurem inspiração na região. No entanto, os modelos de negócio do Vale do Silício, que prioriza o crescimento acelerado e com retorno rápido para os investidores, não são para todos. Como aponta o investidor global e professor do Instituto Middlebury, Alex Lazarow, em seu livro Out-Innovate: How Global Entrepreneurs – de Delhi a Detroit – are rewriting the rules of Silicon Valley, esse tipo de estratégia só funciona em mercados sólidos, estáveis e em ascensão. Infelizmente, a maioria das economias em crescimento não exibe essas características.

Economias em crescimento, como o Brasil, onde o acesso ao capital ainda é restrito, onde as empresas não podem contar com profissionais bem treinados, e onde a volatilidade da economia é a regra, o modelo do Vale do Silício certamente não é o mais adequado. Ainda assim, todos esses desafios não impedem que o empreendedorismo e os ecossistemas de inovação floresçam e sejam prósperos nas economias em crescimento.

No Vale do Silício, o modelo predominante é o de criar unicórnios, empurrá-los para um rápido crescimento e esperar um horizonte de investimento de cinco a sete anos com obstáculos de retorno financeiro muito específicos.

Ao tomar uma abordagem diferente daquela que é encontrada no Vale do Silício, muitos inovadores estão alcançando em outros mercados um crescimento lento, mas consistente. Isso ocorre porque o capital a ser aportado em países mais pobres, com instituições menos desenvolvidas, infraestrutura e mercado de capitais precários, tem pouca ou nenhuma escolha a não ser paciente, pois essas nações lentamente constroem sistemas que possam suportar investimentos futuros.

Criando acesso para atender demandas

De acordo com uma pesquisa recente do Instituto Clayton Christensen, para que empresas e inovadores prosperem nos chamados "mercados em crescimento", muitas vezes é necessário investir em inovações criadoras de mercado, que transformam produtos ou serviços complicados e caros em simples e baratos, criando acesso a grande parte da população que anteriormente não podia contar com essas ofertas. Com a criação de novos mercados, essas inovações se tornam a alavanca para o crescimento, estabilidade e prosperidade.

Esse processo está acontecendo em todo o mundo, onde empreendedores e gestores de inovação identificam bolsões de não-consumidores que se beneficiaram da compra e uso de produtos ou serviços, mas não podem fazê-lo porque são inacessíveis devido ao custo, inconveniência ou outras barreiras. Uma estratégia de inovação criadora de mercado é especialmente adequada para inovadores em economias em crescimento, onde grande parcela da população não são consumidoras de coisas básicas, como energia confiável, saúde de qualidade, serviços financeiros e muitas outras.

Sanergy e Drinkwell

Para ilustrar o argumento sobre a importância da criação de novos mercados, considere as seguintes organizações de criação de mercado que operam no Quênia e na Índia.

No Quênia, a Sanergy fornece soluções de saneamento que atende moradores urbanos e que são cinco vezes mais baratas que as soluções de esgoto tradicionais. A empresa capacita empreendedores que operam latrinas comunitárias oferecendo um banheiro comunitário pago para uso em locais sem estrutura de saneamento básico e em favelas. Os resíduos são coletados e tratados por meio da digestão anaeróbica, uma sequência de processos em que microrganismos quebram matéria biodegradável sem oxigênio.

A Sanergy trabalha para converter esse resíduo em ração animal que é vendida a agricultores. Além disso, a empresa também processa esses resíduos em fertilizantes orgânicos. A empresa atende atualmente mais de 120 mil pessoas diariamente, e já coletou mais de 15 mil toneladas de resíduos em 2021. A Sanergy definiu o saneamento como o problema a ser resolvido a partir da avaliação da melhor e mais inovadora maneira que viabilizasse a quebra de barreiras ao consumo que causam esses problemas.

Por sua vez, na Índia, a Drinkwell criou um mercado de água pura e tratada servindo comunidades de baixa renda de Bangladesh que, durante décadas, sofreram com um dos maiores envenenamentos em massa da história humana com arsênico. A empresa precisava que sua solução fosse simples, acessível e barata. Fazer isso acontecer exigiria tanto, se não mais, criatividade do que era necessário para projetar um filtro.

Criar modelos de estruturação de preços e de rentabilidade que poderiam garantir o acesso ao consumo, de acordo com a capacidade de compra e o estabelecimento de um modelo de negócio financeiro sustentável, foi um dos grandes desafios para a Drinkwell garantir uma solução para o problema de intoxicação por água.

Como qualquer organização que cria mercado, a empresa indiana precisava de mais do que apenas um bom produto: ela precisava criar um sistema que tornaria essa solução acessível a pessoas que antes não poderiam comprá-lo. Eles imaginaram seu modelo de negócio do zero e desenvolveram um sistema robusto que permitiu lucratividade para todos os envolvidos .

Drinkwell projeta e fabrica os filtros de água, então os vende para empreendedores locais. Esses empreendedores constroem pequenos negócios criando quiosques, chamados de "caixas eletrônicos de água", e estimulam suas redes para vender água purificada a preços acessíveis para suas comunidades.

Desde o lançamento em 2013, a Drinkwell abriu mais de 230 caixas eletrônicos de água em Bangladesh e na Índia, criando 340 empregos locais e fornecendo água limpa para até 2 mil famílias. O objetivo é aumentar até 500 caixas eletrônicos de água até 2022, depois para 1.500 até 2024, permitindo que o serviço chegue a um milhão de clientes.

Superar desafios na criação de mercados

Semelhante ao Quênia, Índia e muitos outros empreendedores em economias de crescimento, os inovadores brasileiros também enfrentam menos acesso de capital, instabilidade econômica, além de falta de infraestrutura confiável. No entanto, apesar de todos esses desafios, empreendedores e gestores de inovação podem superá-los e criar prosperidade por meio da criação de novos mercados.

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Colunista Christimara Garcia e Efosa Ojomo

Christimara Garcia e Efosa Ojomo

Efosa Ojomo é um pesquisador sênior no Clayton Christensen Institute, onde lidera a pesquisa do núcleo de Prosperidade Global. Já Christimara Garcia é a fundadora da Catalyze Innovations Initiative, um Action Tank com a missão de promover inovações criadoras de novos mercados no Brasil. Efosa e Christimara desenvolvem uma parceria entre o Clayton Christensen Institute e a Catalyze Innovations Initiative com o intuito de ilustrar o poder que as inovações criadoras de mercado têm sobre organizações e sociedade na promoção de desenvolvimento socioeconômico e da prosperidade.

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