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Planeta azul, orçamento de carbono vermelho

Um racionalista do clima avisa: é preciso convencer os céticos e negacionistas do clima, ou não resolveremos o problema a tempo

Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

21 de Janeiro

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Artigo Planeta azul, orçamento de carbono vermelho

Enquanto dignitários, magnatas e ativistas se reuniam em Davos para discutir o futuro da humanidade, decidi enviar uma carta aberta aos organizadores do Fórum Econômico Mundial. Minha ideia era sugerir medidas concretas para a utilização eficiente do orçamento de carbono disponível para a humanidade antes que a catástrofe climática atinja os desvalidos do planeta Terra. A única resposta oficiosa que eu recebi até o momento foi o e-mail de um advogado suíço dizendo que estava à minha procura para que eu finalmente pudesse sacar minha herança depositada num banco em Zurique. Para tanto ele solicitava gentilmente a senha do meu zap. Estes negacionistas do clima pensam que podem me comprar. 

O orçamento de carbono estabelece o limite máximo de emissões em toneladas de CO2 acumuladas na atmosfera terrestre – um caminho sem volta. Uma vez superado este limite, os efeitos deletérios das mudanças climáticas se agravarão, comprometendo de maneira eventualmente irreversível a integridade do planeta. Segundo o painel de especialistas em mudanças climáticas da ONU (IPCC), o orçamento de carbono do planeta é de 420 bilhões de toneladas de CO2, para uma probabilidade de 67% de aumento de temperatura da Terra limitada em 1,5°C. Ou seja, se a humanidade estourar o orçamento de carbono, existe 67% de probabilidade de nos depararmos com um cenário no qual o aumento da temperatura da superfície terrestre extrapole o limite considerado seguro de 1,5 °C. Dado que as emissões globais de todas as atividades humanas totalizaram aproximadamente 43 bilhões de toneladas de CO2 em 2019, neste ritmo a humanidade conta com no máximo 10 anos para esgotar o orçamento de carbono da Terra. 

Vale registrar que mesmo as análises cientificas mais rigorosas embutem margem de erro relevante dadas as incertezas associadas a fenômenos geofísicos ainda pouco conhecidos, tal como o temido efeito de retroalimentação. Por exemplo, não existe modelo preditivo robusto para o comportamento das correntes marítimas em caso de degelo do Ártico retroalimentando o aumento da temperatura da superfície terrestre. Por fim, um ultimo comentário de um cético de análises econômicas: na elaboração do orçamento de carbono terrestre, o IPCC utiliza os chamados Modelos de Avaliação Integradas (IAM, na sigla em inglês) baseados em cenários de padrão de consumo e demografia que são, em muitos aspectos, imprevisíveis. 

Em resumo, estamos enroscados. Os 3,5 bilhões de anos de seleção natural e de patriarcado nos impuseram esta realidade de orçamento de carbono que mais parece a PEC do fim do mundo do governo passado. Eu me considero um racionalista do clima e acredito que o avanço tecnológico irá evitar a catástrofe climática, mas neste momento de extrema polarização em nossa sociedade tomo a liberdade de compartilhar uma ideia que me aflige há algum tempo. Precisamos ganhar o coração dos céticos e dos negacionistas do clima. Caretas não ajudam. Embora metade dos brasileiros esteja convencida de que o rock'n roll leva ao aborto e ao satanismo*... Por que não relançar musicas de sucesso ligeiramente modificadas com o intuito de difundir a mensagem da emergência climática? Eu começaria com “Space Oddity” do David Bowie: “...planet Earth is round, warming and blue and there is a lot I can do. Major Tom to ground control...” 

De lambuja vai a mensagem contra o terraplanismo.

N. da E.: *Essa afirmação é do nosso colunista. A MIT Sloan Review Brasil não pode concordar com essa estatística. (Nem de brincadeira!)

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Colunista Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins

Carlos de Mathias Martins é engenheiro de produção formado pela Escola Politécnica da USP com MBA em finanças pela Columbia University. É empreendedor focado em cleantech.

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