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Tecnologia e dados

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As tecnologias digitais avançam no Brasil – e podem avançar ainda mais e melhor

O Brasil já é o 10º maior produtor mundial de tecnologias da informação e comunicação. Entidade que reúne os principais players do setor, a Brasscom faz um raio X de seu impacto no presente e projeta seu potencial de crescimento | por Affonso Nina

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14 de Abril

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Artigo As tecnologias digitais avançam no Brasil – e podem avançar ainda mais e melhor

É fato inegável que o setor de tecnologia da informação e comunicação (TIC) tem desempenhado um papel cada vez mais significativo na economia nacional, impulsionando o crescimento, a inovação e a criação de empregos. Hoje as tecnologias digitais estão presentes em praticamente todos os setores de atividade econômica do País e, literalmente, na palma da mão de grande parte da população. Vejamos alguns dados.

O setor de TIC engloba empresas produtoras e provedoras de hardware, software, serviços de tecnologia, incluindo computação em nuvem. Já o chamado “macrossetor de TIC” também engloba, de maneira mais ampla, o setor de telecomunicações e a produção “in-house” de tecnologia por empresas de outros setores da atividade econômica. Ou seja, empresas cuja atividade fim não é a TIC, mas que utilizam e produzem soluções de tecnologias digitais e colaboram, portanto, para os números de produção do macrossetor.

Em 2023, o macrossetor de TIC alcançou números impressionantes, evidenciando sua importância estratégica para o Brasil: movimentou R$ 707,7 bilhões (US$ 141,7 bi), representando 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. Esse valor refletiu um crescimento de 5,9% em relação a 2022, destacando a robustez e a resiliência do setor mesmo em cenários desafiadores.

Distribuição da receita e segmentos em destaque

No setor de TIC especificamente, a receita formada pelo mercado interno movimentou R$ 302 bi, enquanto a receita das exportações foi de R$ 46,2 bi, o que demonstra um potencial, ainda pouco explorado, de que o Brasil seja uma nação mais exportadora de soluções de TIC.

É importante destacar algumas informações. No mercado interno, a produção de hardware foi influenciada pela receita da infraestrutura, que engloba servidores, armazenamento e equipamentos de redes. Essa infraestrutura experimentou um aumento significativo de 23,6%, à medida que as empresas ampliaram seus serviços digitais nessa área para melhorar a conexão com os clientes. Enquanto isso, a venda de dispositivos como smartphones, computadores, wearables, impressoras e tablets registrou uma redução de 19,6% na receita. Os varejistas de dispositivos enfrentam desafios consideráveis devido ao novo comportamento dos consumidores, que estão atualizando e substituindo seus dispositivos com menor frequência.

Ao mesmo tempo, o segmento de software, serviços e nuvem cresceu 28,3% em 2023. Analisaremos a seguir cada um desses três itens, que cresceram impulsionados principalmente pelo aumento da disponibilidade de dados de diversas naturezas e pela crescente necessidade de uso, análise e tomadas de decisão a partir deles.

O subsegmento de software teve um crescimento de 21,6%, alcançando uma produção de R$ 43,8 bilhões. Para 2024, espera-se que as empresas invistam cada vez mais em soluções de gestão capazes de automatizar processos e utilizar dados de forma mais eficiente. Em 2023, soluções como ERM (gestão de recursos empresariais, na sigla em inglês) e software de gerenciamento de dados movimentaram R$ 12,8 bilhões.

Os serviços registraram um aumento significativo de 25,1% em 2023, alcançando uma produção total de R$ 104,3 bilhões. E, finalmente, é importante destacar o crescimento da computação em nuvem, que apresentou um aumento de 25,1%, totalizando R$ 46,5 bilhões em 2023.

Esse cenário reflete a forte demanda das empresas por recursos que suportem decisões baseadas em uma análise abrangente de dados. O avanço na ciência dos dados está impulsionando as empresas a buscar novas soluções, o que, por sua vez, está movimentando o mercado de serviços de TI. Isso inclui uma maior demanda por softwares especializados, consultorias, integração e suporte de projetos relacionados a dados.

As empresas estão repensando suas estratégias de processamento e armazenamento de informações. As áreas de negócios esperam respostas mais rápidas e insights mais profundos, o que torna a integração e interoperabilidade em ambientes híbridos e multicloud essenciais para garantir que os dados estejam disponíveis e utilizáveis.

Em resumo, os números mostram, de forma quantitativa, o que já temos acompanhado no dia-a-dia das pessoas e das empresas: um crescimento conjunto da infraestrutura que armazena e disponibiliza volumes crescentes de dados e informações e também dos softwares e serviços que permitem às empresas fazerem o melhor uso desses dados em seus negócios.

Obviamente não podemos deixar de considerar nesse cenário o uso de tecnologias como inteligência artificial (IA), incluindo IA generativa, para criar produtos e serviços mais atraentes e inovadores, aumentar a capacidade de personalização, gerar novas fontes de receita e mesmo novos modelos de negócio não possíveis anteriormente. Embora a IA não seja nenhuma novidade no mundo da TIC, o acesso às soluções de IA para empresas e indivíduos aumentou, e seguirá aumentando, a uma enorme velocidade. E a IA generativa traz, sim, novas oportunidades e paradigmas que as empresas ainda estão buscando entender e aproveitar, mas que já demandam novas capacidades de processamento: infraestrutura, software e serviços.

Ao mesmo tempo, esse novo ambiente demanda um investimento maior nas soluções de segurança para reduzir as ameaças cibernéticas. Nesse sentido, a perspectiva para os próximos anos é de um aumento no uso de IA em conjunto com soluções de segurança para assegurar uma maior agilidade das empresas na detecção de riscos e rápida resposta aos possíveis ataques ao ambiente digital.

Em relação às exportações, hardware, software e serviços cresceram nominalmente 9,1%, atingindo R$ 46,2 bilhões. Separadamente, as exportações de Software e Serviços tiveram um crescimento nominal de 21,4%, atingindo R$ 29,1 bilhões, enquanto as exportações de Hardware apresentaram uma redução de 6,8%, atingindo R$ 17,1 bilhões. Não custa repetir: o Brasil pode exportar muito mais soluções de TIC. Voltaremos a esse ponto mais adiante.

Empregabilidade e impacto social

O macrossetor de TIC também tem sido um grande gerador de empregos no Brasil. São 2.050.728 empregos formais ao final de 2023 (dados do Caged), quando foram criados, em números líquidos, 29.205 novos postos de trabalho no setor, um crescimento de 1,4% em relação ao ano anterior. Esse crescimento foi menor que o dos anos anteriores (por exemplo, 11,7% em 2021 e 6,1% em 2022) porque a recuperação pós-pandemia já havia ocorrido com maior velocidade e 2023 foi um ano de ajustes.

Mas está alinhado com a transformação digital em diversos setores da economia, impulsionando a demanda por profissionais qualificados em tecnologia da informação.

TI in-house destacou-se como o núcleo de maior geração de empregos do macrossetor de TIC, adicionando 16.465 novos postos de trabalho em 2023, representando crescimento de 3,2%. Esse crescimento indica que, além da contratação de provedores de tecnologia, as empresas também têm investido na internalização de profissionais de tecnologia para agregar na transferência de conhecimento, inovação e diversidade de ideias para melhoria de seus produtos e serviços. O setor de TIC foi responsável pela criação líquida de 73.028 empregos em 2023.

Desafios e oportunidades no comércio exterior

Apesar dos números positivos, o Brasil enfrenta desafios no comércio exterior de TIC. O déficit comercial do setor atingiu R$ 136,3 bilhões, refletindo a dependência de importações de tecnologia. No entanto, esse déficit não deve ser encarado apenas como um aspecto negativo, pois a importação de tecnologia impulsiona o avanço da inovação, o desenvolvimento e a competitividade das empresas no Brasil.

As exportações do setor cresceram 9,1%, atingindo R$ 46,2 bilhões. Destaque para as exportações de software e serviços, que registraram aumento de 21,4%. Isso demonstra a competitividade e o potencial do Brasil no mercado global de tecnologia, especialmente em áreas como serviços de computação.

Perspectivas futuras e potencial de crescimento

O setor de tecnologia da informação e comunicação no Brasil está diante de um potencial enorme de crescimento e diretamente envolvida com o estímulo à inovação nos mais diversos segmentos. A aceleração da transformação digital em setores da economia, como saúde, educação, agronegócio e indústria está abrindo novas oportunidades para as empresas de TIC fornecerem soluções e serviços inovadores.

O Brasil é o 10º maior produtor mundial de TIC e telecom, ao lado de grandes potências como EUA, China, Japão e países europeus. Manter essa posição requer investimentos contínuos em infraestrutura, capacitação profissional e incentivos à inovação.

Um exemplo, entre tantos: uma política nacional de data centers é crucial para o desenvolvimento da infraestrutura de TIC do Brasil, garantindo segurança e disponibilidade para armazenamento e processamento de dados. Uma política bem estruturada pode atrair investimentos, fomentar serviços de computação em nuvem e de processamento de soluções de IA, estimular a demanda, promover inovação e garantir regulamentações para proteção de dados, beneficiando diversos setores e impulsionando a transformação digital e o desenvolvimento econômico do País.

No campo da capacitação profissional, as tecnologias digitais estão cada vez mais presentes em todos os setores econômicos, trazendo inovação e eficiência aos processos, mas gerando uma demanda forte por profissionais cada vez mais qualificados em TIC.

A "alfabetização digital" é essencial para formar profissionais de TI e suprir a demanda do setor digital e tecnológico, mas há uma lacuna educacional que precisa ser preenchida, tanto na formação (e, ponto importante, na requalificação) de profissionais quanto no estímulo ao interesse dos jovens por carreiras digitais.

Em relação aos incentivos à inovação, o Brasil enfrenta desafios significativos em pesquisa e desenvolvimento, pois os investimentos e incentivos ainda não estão adequados às necessidades do setor. Há um amplo espaço para fortalecer a pesquisa científica e construir ecossistemas inovadores mais robustos no País.

No entanto, algumas iniciativas recentes mostram avanços nesse sentido, como a liberação dos recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que estava contingenciado até 2022. A liberação desses recursos, que totalizaram R$ 10 bilhões em 2023, sendo aproximadamente metade não reembolsáveis, representa uma nova oportunidade para impulsionar a inovação em diferentes áreas no Brasil, permitindo que as empresas tenham acesso a financiamentos para seus programas de desenvolvimento e inovação.

Outra ação importante nesse contexto é a implementação da nova política industrial para o Brasil, conhecida como “Nova Indústria Brasil”. Essa política abrange diversos setores e atividades estratégicas para o país, como segurança alimentar, acesso à saúde, infraestrutura para os cidadãos (saneamento, moradia, mobilidade), transformação digital, bioeconomia, descarbonização e tecnologias de defesa.

Todos esses setores têm em comum o uso crescente e estratégico das tecnologias digitais, que estão impulsionando a criação de soluções e produtos mais eficientes, resultando em maior produtividade e melhores resultados.

É essencial que o Brasil tenha uma “estratégia digital de longo prazo”, com uma visão de Estado, para impulsionar o uso intensivo das Tecnologias Digitais em diversos segmentos da atividade econômica. Uma orquestração de esforços do setor público, do setor privado, da academia, do ecossistema de pesquisa & desenvolvimento e do terceiro setor.

Isso não apenas promoverá um crescimento econômico sustentável, mas também contribuirá para uma maior inclusão social e aumentará a relevância do Brasil no cenário global. Essa abordagem é crucial para alinhar o desenvolvimento econômico do País com as tendências tecnológicas e as necessidades da sociedade moderna.

Não é algo simples, não é algo rápido. Mas é possível.


Este artigo foi escrito pelo presidente da Brasscom, Affonso Nina, que tem mais de 30 anos de atuação como executivo de empresas do setor de TIC.

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A Brasscom é a Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e de Tecnologias Digitais. Atualmente, a Brasscom é presidida por Affonso Nina.

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