fb

Diversidade e inclusão

4 min de leitura

Sobre saúde e bem-estar: o vale-academia não dá conta do recado

O acesso à saúde de qualidade ainda é um privilégio para uma minoria no Brasil. No mês do Dia da Consciência Negra e do Dia Nacional de Luta contra o Câncer de Mama, é preciso lembrar que a luta pelo básico, como o direito à vida, deve acontecer para além do mês de novembro

Colunista Grazi Mendes

Grazi Mendes

20 de Novembro

Compartilhar:
Artigo Sobre saúde e bem-estar: o vale-academia não dá conta do recado

O que une o Dia da Consciência Negra e o Dia Nacional de Luta contra o Câncer de Mama, além de ambos serem celebrados no mesmo mês? A resposta revela uma realidade preocupante: embora tenhamos avançado em algumas áreas, muito ainda precisa ser feito para melhorar a saúde e o bem-estar das pessoas negras. Uma pesquisa do Instituto Avon indica que, das mulheres que realizam mamografias, somente 24% são negras. Contudo, elas representam 47% dos diagnósticos de câncer em estágio avançado. A raiz desse problema é a falta de acesso à informação e aos exames necessários, que impede o diagnóstico precoce e contribui para um cenário alarmante: estudos norte-americanos mostram que a taxa de mortalidade por câncer de mama entre mulheres negras é 40% maior do que entre mulheres brancas.

Pouca gente tem noção do que são esses números e, principalmente, das histórias por trás deles. Inclusive eu, confesso, só me aprofundei nessa realidade por vivê-la de perto, ou melhor, de dentro. Prometo voltar a esse assunto em outro momento. Por ora, no mês dedicado à Consciência Negra, quero chamar sua atenção para o fato de que temos poucos motivos para comemorar no que diz respeito a uma das principais frentes da luta por equidade e inclusão: o acesso à saúde ao longo da vida.

A disparidade começa cedo, ainda antes do parto, evidenciada pelo fato de que sete em cada dez gestantes negras recebem atendimento pré-natal inadequado. Além disso, essas mulheres são frequentemente vítimas de violência obstétrica, um fator que contribui para uma estatística sombria: sete em cada dez mortes maternas no Brasil ocorrem entre mulheres negras. A falta de acesso à saúde continua ao longo da vida, conforme demonstra um levantamento do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), que revela que apenas 21,7% da população negra possui algum tipo de assistência médica ou odontológica, e 43,9% dos adultos negros nunca realizaram um exame de vista.

De acordo com o Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra), 43,9% dos adultos negros jamais fizeram sequer um exame de vista.

Os números mostram que não se trata de coincidências, mas de uma violação sistemática dos direitos fundamentais de uma parcela significativa da população brasileira, que representa 56% da sociedade. As assimetrias no atendimento à saúde são apenas a ponta do iceberg de uma questão muito mais complexa, que inclui disparidades profundas no acesso à educação, informação, saneamento básico e alimentação de qualidade. Essas desigualdades se refletem em dados alarmantes, como o risco de desnutrição, que é 90% maior entre crianças negras, e a prevalência de diabetes tipo 2, que é 50% mais alta em mulheres negras e pardas.

No contexto corporativo, embora se fale cada vez mais sobre saúde e bem-estar, ainda há um abismo entre a retórica e a realidade, especialmente quando se trata de oferecer condições básicas de sobrevivência para a maioria da população. A responsabilidade pelo acesso universal à saúde recai sobre o poder público, mas a criação de redes de apoio e proteção social também depende do comprometimento do setor privado. Esta é uma questão de vida ou morte, literalmente. Na era da experiência do colaborador, a adoção de políticas de benefícios que considerem o racismo estrutural no Brasil é um passo importante. Além disso, o investimento em saúde integral e preventiva tem impactos diretos nos resultados financeiros das empresas, como a redução de custos com planos de saúde, a diminuição do absenteísmo e o aumento da produtividade, além de aliviar o sistema público de saúde.

Para quem ainda não se convenceu da importância social do ESG, vale frisar que os investimentos em saúde integral e preventiva têm impactos diretos nos resultados financeiros.

Apesar da existência do SUS e de outras iniciativas voltadas para a democratização dos serviços médicos, o acesso à saúde de qualidade ainda é um privilégio para uma minoria no Brasil. Quando um direito universal se torna exclusivo para poucos, é sinal de que algo está profundamente errado com nossas prioridades e com o futuro que estamos construindo para a sociedade e para o planeta. A pergunta que fica é: quando nos tornamos tão insensíveis à realidade de tantas pessoas ao nosso redor? Cada vida importa e, com cada perda, um pedaço da nossa humanidade se vai.

Enfrentamos um desafio extenso e contínuo. A história nos mostrou, através de séculos de resistência e luta, que a mudança não surgirá daqueles que criaram e ainda se beneficiam das estruturas de racismo e desigualdade que marcaram nossa vida cotidiana. Mudança verdadeira requer ativismo, indignação e pressão social. Líderes corporativos desempenham um papel crucial como impulsionadores desta nova consciência em suas equipes, clientes e redes de stakeholders. Ignorar esta realidade já resultou na perda de milhões de vidas. Por isso, se precisamos escolher e priorizar nossas lutas com sabedoria, a escolha deve começar por considerar o que é básico, como o direito à vida. Se dedicar um mês é necessário para nos conscientizarmos dessa questão, que este seja apenas o primeiro de muitos outros meses ao longo do ano dedicados a mudar essa realidade.

Compartilhar:

Colunista

Colunista Grazi Mendes

Grazi Mendes

Grazi Mendes está como head of diversity, equity & inclusion na ThoughtWorks Brasil, consultoria global de tecnologia, é professora em programas de desenvolvimento de lideranças e cofundadora da Ponte, hub de diversidade e inclusão. Acumula cerca de 20 anos de experiência em gestão estratégica, branding, design estratégico, liderança e cultura, com atuação em empresas nacionais e multinacionais de segmentos diversos.

Artigos relacionados

Imagem de capa Nudges pró-diversidadeAssinante

Diversidade e inclusão

01 Fevereiro | 2024

Nudges pró-diversidade

Pesquisas mostram que, para alterações mais profundas no ambiente de trabalho, times que optam por começar pelo treinamento individual antes do coletivo têm melhores resultados

Paola Cecchi Dimeglio