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Top 8: o melhor da 1ª edição da Hackmed

O setor de saúde está na vanguarda da transformação digital, em especial no Brasil. Confira os Hackmed Conference & Health Hackathon, realizado pela FMUSP e pelo MIT Hacking Medicine, com apoio da MIT Sloan Review Brasil

Sandra Regina da Silva

07 de Fevereiro

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Artigo Top 8: o melhor da 1ª edição da Hackmed

A tecnologia, com destaque para a inteligência artificial (IA), terá um grande impacto no setor de saúde do Brasil. Ao processar muito mais dados, que estarão disponíveis para a medicina, e com análises mais apuradas dos mesmos, aumentará o acerto dos diagnósticos, dos tratamentos e até das chances de cura de doenças. “Tudo vai acontecer depressa”, prevê Jorge Paulo Lemann, fundador da 3G Capital e AB Inbev.

Para o empresário, a área da saúde com novas tecnologias é um dos segmentos mais interessantes para se investir não só no Brasil, mas globalmente. Lemann participou do Hackmed Conference & Health Hackathon, realizado em São Paulo, pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e pelo MIT Hacking Medicine, entre outros, de 31 de janeiro a 2 de fevereiro de 2020, com apoio da MIT Sloan Review Brasil.

O evento, inspirado no MIT Hacking Medicine dos Estados Unidos,  ligado ao Massachusetts Institute of Technology bem como esta revista, contou com grandes nomes da área da saúde e da tecnologia, que debateram no primeiro dia o presente e o futuro da medicina, ou como hackear a saúde para o bem valendo-se dos avanços tecnológicos, da inovação e do empreendedorismo. 

Além de ter bancado os estudos de cerca de 3 mil bolsistas em todas as áreas nos últimos 40 anos, Lemann contou que tem hoje pequenos investimentos no setor de saúde, como em um estudo sobre como modificar o gene para prevenir doenças e no Dr. Consulta. Porém, ele avisa que a 3G Capital está de olho e vê grande potencial, como nas especialidades de ortopedia e cardiologia.  “Gostaríamos de fazer algo grande nessa área”, anunciou. 

De fato, as possibilidades de desenvolvimento da medicina, principalmente no Brasil, são extensas. Há espaço de sobra para os avanços, tais como os robôs, que conectam pacientes a médicos, à maneira que vemos acontecer na China. Lá, um robô já é capaz de fazer exames de imagens e dar diagnóstico – e isso está sendo testado neste momento nos Estados Unidos. 

Isso sem contar os ganhos a partir de projetos que resolvam desafios como os encontrados num país com dimensões como as do Brasil, em que inexistem atendimentos médicos em locais remotos. Numa visão mais macro, o País sequer tem uma base de dados que suporte o sistema de saúde, seja público ou privado.

Confira os principais destaques do Hackmed que a MIT Sloan Review Brasil selecionou especialmente para você:

1 – IA e a humanização

É consenso que a IA vai trazer maior acerto e rapidez em detecção precoce, diagnóstico, desenvolvimento de remédios, pesquisas clínicas. Ela também estará por trás de soluções de otimização de leitos e de mão de obra de hospitais e facilitará o dia a dia dos médicos, assim como a tomarem melhores decisões e a proporcionar a humanização da relação com o paciente.

Estima-se que até 2025 o uso da IA aplicada ao setor de saúde vai movimentar globalmente US$ 34 bilhões. Outra pesquisa aponta que, até 2021, 20% das empresas de saúde terão ganho de produtividade na ordem de 15 a 20% graças ao uso de IA.

Alguns setores, como o de mídia, varejo, estão bem à frente; outros, como o financeiro, ainda estão numa fase anterior, porque os bancos tradicionais ainda gerenciam a massa econômica e o setor é mais regulado. Isso também acontece na medicina. “Setores mais regulados acabam tendo uma velocidade menor de transformação digital, mas vai chegar porque a necessidade existe”, analisou Marco Stefanini, CEO da Stefanini.

Para ele, a IA, de forma geral, está na fase do amadurecimento. Quando há o entendimento que não é só a tecnologia, mas um modelo negócios, que envolve o mindset da liderança, aí sim ocorre a evolução da tecnologia. “Temos um trabalho de inteligência artificial e o mercado, agora, está dando um salto. Daqui seis meses, poderemos criar um modelo em que se aprende pelo menos parte de forma automática, sem precisar de curadoria.” 

A área da saúde, na opinião do especialista, entretanto, tem um grande problema, que não é tecnologia. “O modelo de saúde do Brasil é falido. E o modelo de gestão tem que ser mudado.”

Apesar do atraso, o futuro é promissor. “A IA vai aumentar a inteligência do que podemos fazer, a partir da ampliação das informações já pré-analisadas que chegarão aos profissionais, que passarão a não perder tempo com tarefas repetitivas. Assim, teremos mais tempo para interação humana com o paciente, ou seja, apoiará a humanização”, disse Edgar Rizzatti, medical and technical executive director do Grupo Fleury.

A tecnologia, para Paulo Chapchap, diretor geral do Hospital Sírio-Libanês, vem para resolver dois grandes problemas que são subdimensionados: exclusão de pessoas no acesso à saúde e imprecisão nos diagnósticos e tratamentos. “Num cenário com milhares de patologias, milhares de diferentes condições genéticas, tratadas por milhares de pessoas cada qual com suas competências, é natural termos imprecisão nos tratamentos médicos. Mas isso será resolvido.”

O que se espera com o avanço da IA, na opinião de Gisselle Ruiz y Lanza, presidente da Intel Brasil, é uma revolução na medicina. Mais especificamente, trará personalização aos tratamentos, além de ser uma oportunidade para melhorar o acesso à assistência de saúde.

Mas não é só a IA, na visão de Margareth Amorim, responsável pela estratégia da SAP Brasil para a área da saúde. Ela inclui aí blockchain, IoT, analytics avançados, aprendizagem de máquinas, os quais virão para apoiar as decisões médicas, e não as substituir.

Apesar de concordar com essa faceta de suporte às decisões, o diretor geral do Instituto do Câncer e chefe da Oncologia da Rede D’Or, Paulo Hoff, acredita que a IA vai ser, sim, substitutiva a uma parte do trabalho médico. “A China está liderando isso. Como tem poucos médicos lá, temos visto, por exemplo, as cabines telefônicas, em que o paciente entra e, após ser atendido por um robô, sai com uma prescrição médica”, disse Hoff, que continuou: “Acho que o desafio será manter a humanização e o controle humano sobre a máquina”.

2 – Avanços com o 5G

O 5G, que aumenta muito a velocidade de download e upload na rede, tem a capacidade de reduzir o tempo de reação dos dispositivos conectados entre um comando e a ação.

Na opinião de Lanza, da Intel, o 5G será um catalizador e ajudará a amadurecer a inteligência artificial, no mundo, incluindo o Brasil. Os avanços serão na telemedicina, medicina preventiva usando deep learning, levando mais informações para o médico como nunca visto. 

Essa evolução já começou na China. No ano passado, cirurgiões, a partir de Pequim, realizaram uma cirurgia em uma paciente de 36 anos que estava em Tianjin, a 100 km de distância. Os médicos fizeram o procedimento com sucesso à distância através de ferramentas robóticas conectadas à rede 5G.

3 – Saúde 5.0

Chao Wen, chefe do Departamento de Telemedicina da Faculdade de Medicina da USP, explicou que o termo sociedade 5.0, criado no Japão em 2016, é o que seremos pós a 4ª revolução industrial. “Então, 5.0 indica o lado humano, empático, o lado da construção de raciocínio e assim por diante.” Portanto, em sua visão, a saúde 5.0 reforçará a humanização para a medicina.

Dentro do universo 5.0, a telemedicina ganha destaque. A jornada da telemedicina começou em 2011 dentro do Hospital Albert Einstein, como relembrou o seu presidente, Sidney Klajner. Contou que o método já foi utilizado, com o conceito de teleorientação, para o caso de um infarto agudo ocorrido numa plataforma de petróleo, cujo custo de remoção era maior que US$ 15 mil. 

“A partir daí, vieram raciocínios como a telemedicina assíncrona, que permitiu, através de uma parceria com a Prefeitura, zerar a fila para consulta de dermatologia, com teledermatologia. Outro é em consulta de especialidades para UTIs onde não há a presença do especialista, que contribui para a diminuição de mortalidade, bem como para capacitação profissional”, contou Klajner. 

Para ele, a telemedicina, o formulário eletrônico, uso da IA e da IoT, porém, exigem transformação cultural, quebra de paradigma, necessidade de terminar com o corporativismo que às vezes impede as novas tecnologias de avançarem. “Existe muito a ser feito para poder oferecer os benefícios para aquele que é mais importante desta relação, que é o paciente”, completou Klajner.

O CEO da GE Healthcare Latin America, Luiz Verzegnassi, mostrou como a evolução está ocorrendo rapidamente. “Dois anos atrás, fizemos várias apresentações de inteligência artificial, num evento em Chicago. Tudo era aspiração. Em 2019, mostramos na prática a utilização da IA no mesmo evento, embarcada nos produtos, por exemplo, que fazem captação de imagem para leitura de um radiologista. Foi um salto quântico: estou falando de 60% de melhoria na qualidade de uma imagem”.

Já no operacional, o salto ainda é maior, garante Verzegnassi. A GE cocriou com o hospital Johns Hopkins, dos Estados Unidos, um centro de comando com IA para ser preditivo na disponibilidade de leitos, o que era um desafio para aquela instituição. “Isso vem sendo replicado e já está sendo implantado em 15 hospitais.”

O CEO da GE também destacou o avanço das UTIs integradas. Anualmente, a companhia investe US$ 1,5 bilhão em pesquisa e desenvolvimento, boa parte dele é destinado a soluções digitais.

4 – Soluções na prática

No Brasil, as instituições de ponta estão liderando a aplicação de tecnologias a suas estruturas. O Fleury, na área de imagem, validou um algoritmo de inteligência artificial que auxilia seus médicos no diagnóstico de embolia pulmonar, situação em que há um coágulo nos grandes vasos do pulmão que pode ser grave, podendo ir a óbito. 

Essa ferramenta auxilia no diagnóstico precoce, conforme explicou Rizzatti. “Ela faz o escaneamento automatizado enquanto o paciente está sendo submetido ao exame de tomografia e indica para o radiologista quando há sinais de risco de embolia pulmonar.” O algoritmo foi testado, em parceria com a startup israelense Aidoc, e está sendo instalado nos equipamentos.

Outro desenvolvimento, feito internamente no grupo em parceria com a GE, é de um algoritmo de machine learning, que ajuda os médicos no diagnóstico de doença isquêmica do coração. Ele identifica os pacientes de forma automatizada, a partir da combinação de diversos exames realizados, faz a compilação dos resultados e sugere o diagnóstico, que então é revisado pelos médicos. O relatório com diagnóstico integrado é, depois, enviado para o médico do paciente.

Rizzatti falou ainda da parceria com a robô Laura, que faz o monitoramento dos dados do prontuário eletrônico com resultados de exames, identificando precocemente os pacientes em risco de infeção hospitalar generalizada. 

O diretor de strategy, innovation & business analytics do Fleury, Hans Lenk, informou para MIT Sloan Brasil que essas são apenas algumas das várias iniciativas tecnológicas do grupo. Há, inclusive, uma que permite que o paciente unifique todas as suas informações numa plataforma, ajudando-o a gerenciar sua própria saúde.

O Sírio-Libanês, por sua vez, tem várias iniciativas com inteligência artificial e também uma série de desafios, segundo Chap-Chap. Ele contou que foi estudado o Aidoc para hemorragia intracraniana e detectou-se problemas de acurácia, então “o algoritmo ainda precisa evoluir”. Em outra frente, foi trabalhado o no-show, que prevê absenteísmo e faz o preenchimento de espaços, com bons resultados. 

“Um dos mais importantes em que estamos investindo bastante é na construção do data bank. Todos falam que os dados são o novo petróleo, o novo ouro, mas esquecemos que a arquitetura, a fluidez, a confiabilidade dos dados, captados de diferentes fontes e formas, é fundamental para tudo. E não é trivial criar e dar consistência, fazer a clusterização (análise de agrupamento) e incluir ferramentas analíticas consistentes”, detalhou Chapchap. 

Para esse contexto, algumas áreas foram escolhidas, sendo a radiologia a mais natural delas. “Não vamos substituir, e sim aumentar a potência dos radiologistas com softwares de inteligência artificial e reconhecimento de imagem. A minha aposta é que vamos levar o radiologista de volta para o lado das pessoas. Eles acabaram se afastando, passaram a gostar de salas escuras, silêncio, monitores e perderam uma característica fundamental que é ser um especialista em diagnóstico, e não em ler imagem.” 

Outras áreas importantes são a de dados, a de previsão de sepse – “temos uma avaliação crítica à robô Laura, porque achamos que tem que ter mais acurácia”, comentou Chapchap – e a parte operacional para garantir maior produtividade. “Rapidamente, vamos chegar ao call center, que é algo muito arcaico. Trabalhamos muito, como porta de entrada, a ligação telefônica e script para interação com o paciente, e estamos investindo numa substituição”, disse sem dar maiores detalhes. 

Chapchap contou ainda que, na área médica, há um problema específico: a utilização de MVP, produto com valor mínimo. “Os médicos naturalmente resistem e tendem a tornar informatizado o trabalho físico. Nós, médicos, temos dificuldade em enxergar um jeito completamente diferente de fazer medicina.”

Para evoluir definitivamente, Chapchap percebe a necessidade de mexer no modelo de gestão para que a transformação digital aconteça. “Não adianta só desenvolver a tecnologia se não preparar as pessoas para recebê-la.” 

No Hospital Albert Einstein, a IA está inserida em várias frentes, além de telemedicina. Depois de ver no John Hopkins, dos EUA, criou uma central de comando para gestão de qualidade e segurança, que olha os 650 leitos, com 150 indicadores monitorados em tempo real, como predição de leitos na administração, previsão de head count no pronto-atendimento permitindo otimizar as horas em que se precisa e qual o número ideal de plantonistas. 

Tudo conforme o big data mostra, como os picos de frequência, que considera verão, inverno, volta às aulas, epidemias etc. Isso melhora a eficiência. “O aproveitamento desta inteligência ampliada, como chamamos, do ponto de vista assistencial é a última a ser entregue, talvez por um conservadorismo que vem do ensino médico e demais profissionais de saúde”, afirmou Klajner, o que indica a necessidade de um trabalho de engajamento dos mesmos para se atingir os melhores resultados.

5 – Proteção de dados

Apesar de o compartilhamento dos dados médicos dos pacientes representar boas possibilidades para a evolução do conhecimento sobre doenças, diagnósticos e tratamentos, vem à tona a questão de proteção de dados pessoais. O tema terá que ser tratado com muito cuidado e ética. Por exemplo, para extrair dados de exames de imagem, o paciente não poderá ser identificado, já que o compartilhamento com terceiros exige prévio consentimento.

Nesse sentido, a Intel desenvolveu com o Laboratório de Informática Biomédica, do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas, uma solução de IA e deep learning para a anonimização dos dados pessoais dos pacientes em exames diagnósticos por imagens e sinais biomédicos. 

A tecnologia, em fase de validação científica, permitirá o processamento de grandes volumes de dados de exames, com fins de pesquisa para novos diagnósticos e tratamentos, garantindo a privacidade dos pacientes. 

6 – Banco de dados e formulários eletrônicos

Pesquisa aponta que, numa consulta de 20 a 25 minutos, o médico norte-americano gasta 16 minutos na entrada de informações no prontuário eletrônico. “Não teremos bons algoritmos se não tivermos um bom big data, e este é totalmente dependente da entrada pelo médico. O processo não está adequado e vem frustrando os profissionais”, contou Hoff.

Hoff considera um dos grandes desafios a parametrização dos formulários médicos. “O desafio atual é a Natural Language Processing. Os fornecedores estão tentando resolver, para que o médico possa usar suas próprias palavras, e para que a inteligência artificial faça a tradução para um sistema parametrizado”, comenta.

Cauê Gasparotto Bueno, aluno da Faculdade de Medicina da USP, ex-membro do MIT Hacking Medicine e responsável por trazer o Hackmed para o Brasil, destacou para MIT Sloan Brasil a necessidade de esforços para a padronização de dados de saúde para alavancar a formação de um banco de dados consistente. “Enquanto algumas poucas instituições conseguem trabalhar bem com os dados, há outras, públicas, que tem prontuário ainda no papel.”

Para gerar inteligência, os sistemas das diversas instituições também precisam conversar entre si, e isso não acontece nem mesmo entre os sete diferentes prontuários eletrônicos existentes no Hospital das Clínicas, por exemplo.

Bueno contou que não é uma dificuldade local, mas mundial. “Há até um movimento global”, disse, ao citar o programa Observational Health Data Sciences and Informatics (OHDSI, que é pronunciado "Odyssey"). Com soluções de código aberto, o OHDSI reúne uma rede internacional de pesquisadores e de bancos de dados de saúde, cuja coordenação está sediada na Columbia University. 

Em 2018, 8,41 petabytes (ou 8.410 terabytes) de dados foram gerenciados por healthcares no mundo. Jackson Barros, diretor do Departamento de Informática Médica do SUS, disse que nenhum país tem tantas informações como o Ministério da Saúde. “Mas, infelizmente, somos incapazes de processar”, confessa. 

Ele contou que o projeto do governo é que as informações voltem para os estados, municípios e instituições de saúde, para que possam usá-las para gerar inteligência a ser aplicada às gestões interna (da própria instituição) e pública. 

“A inteligência artificial é condição sine qua non para uma boa gestão, para equilibrar a demanda e a oferta, levando saúde para quem realmente precisa. O problema é que todos olham para a tecnologia, mas estão esquecendo as pessoas, no sentido de treiná-las para entenderem os dados e terem ações de gestão”, afirmou Barros.

7 – Iniciativas governamentais

“Estamos começando a olhar os dados de forma estratégica”, destacou Barros, ao justificar a iniciativa do governo em liberar investimentos para cada uma das cerca de 40 mil unidades básicas de saúde (UBS) somente após o envio dos dados, e com qualidade, o que permitirá cruzamento de informações. 

Entretanto, existem UBSs que sequer são informatizadas, além de que não há exigência por lei de utilização de determinados sistemas com compatibilidade para que conversem entre si. 

“Quando fui convidado para ir para o Ministério, um dos meus desafios era o de consolidar os dados nacionais de todos os pacientes, montar, no jargão do nosso presidente, o prontuário do cidadão, já que não existe um único prontuário médico em todos os sistemas”, relembrou Barros.

Para melhorar isso, haverá um decreto-lei, que obrigará todos os estabelecimentos de saúde, sejam do SUS, privados ou públicos, a se conectarem à rede nacional de dados de saúde, que já está implementada, e cujo piloto ocorrerá no estado de Alagoas. Em maio, deve ser lançado para todo o Brasil. 

Barros explica que cada gestor de estado receberá um contêiner virtual e todos os estabelecimentos daquele estado deverão se conectar. Inicialmente serão poucas informações, como tratamento, sumário, medicamentos, vacinas e exames realizados. “Não é 100% de um prontuário, mas é um início. E tem sido benchmarking para o mundo; até um pessoal da Dinamarca está vindo para conhecer o nosso projeto”, completou.

Barros garante que o problema da saúde não é dinheiro: são R$ 130 bilhões para a pasta, e o Datasus tem R$ 500 milhões para investir em tecnologia por ano. “É muito dinheiro, na minha opinião, e dá para fazer muita coisa”, alega. O desafio é usar esse recurso com Inteligência.

Ele concluiu sua fala avisando que o sistema nacional será baseado em CPF para identificação do cidadão. “O cartão nacional de saúde vai acabar. Não tem sentido falarmos de trabalhar com dados de saúde com um número (do cartão nacional) difícil de ser gerado e sobre o qual não existe qualquer governança.” 

Durante o evento, Regiane Relva Romano, assessora especial do ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Marcos Pontes, subiu ao palco para dar “alguns recados bons”. “Estamos agora com o plano nacional de internet das coisas, com quatro áreas prioritárias: cidades, rural, indústria e saúde. E estamos com vários chamamentos abertos para a área da saúde para pessoas inovadoras”, disse.

O MCTIC tem um chamamento para a criação de quatro laboratórios de inteligência artificial, que deverão contar com a participação da academia, empresas e startups. Romano citou ainda um novo chamamento, em que a Softex (Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro) vai apoiar até cem projetos na área de IA, de até R$ 500 mil, e a saúde está entre as prioridades.

A assessora falou ainda sobre alterações na Lei do Bem, no Funttel (Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações) e na Lei de Inovação, “que também têm muito dinheiro na mesa para a área da saúde e qualidade de vida”. 

8 – Conhecimento internacional

O Hackmed contou com uma palestra do professor da Harvard Medical School Masanori Aikawa, que falou sobre como a IA fortaleceu as pesquisas científicas, levando a muitas inovações na área médica. “A ciência médica está ficando sem fronteiras”, disse ao se referir à integração de todos os stakeholders da cadeia. 

Outro professor, o brasileiro Robson Capasso, da Stanford School of Medicine, demonstrou como se desenvolve inovação, tema importante para o atual cenário de aumento da longevidade no Brasil e, como consequência, um maior número de casos de doenças, principalmente na prevalência de doenças crônicas. 

Além disso, seguir à risca tratamentos, por exemplo, está totalmente nas mãos do paciente, e o médico nada pode fazer. “A medicina que fazemos hoje não é a mais adequada. Soma-se a isso a concentração de médicos nos grandes centros. Precisamos pensar em modos alternativos de cuidar disso”, pontuou.

E não é para se inspirar em modelos, como o dos Estados Unidos. Capasso, que também é global advisor do Stanford Byers Center for Biodesign, garante que a medicina de lá é inadequada até para os EUA, que gasta quase 20% do seu PIB em saúde. Comparando a longevidade dos americanos com quanto se gasta por pessoa, o resultado é o dobro da média europeia e cinco vezes mais do que a japonesa. “Incrivelmente, pela primeira vez na história, a longevidade do americano caiu.”

Os EUA gastam US$ 11 mil por ano por pessoa, no Brasil são US$ 600 e na Europa US$ 2 mil, segundo ele. Além disso, 40% dos médicos americanos têm sintomas de burnout e 70% não recomendam a profissão para seus filhos.

“Não dá para continuarmos a fazer como fazemos hoje. Temos, principalmente no Brasil, problemas demográficos severos e o modelo atual não é sustentável”, disse. O que precisa ser feito está no value based heathcare, para melhorar custos, acesso e conveniência para o paciente; e usar a tecnologia em todos os níveis, desde a descoberta de uma droga até como o paciente a leva para casa.

Sem dúvidas, as soluções estão em inovação, mas para ter sucesso é necessário planejamento. Capasso ensinou como inovar:

  • Formar um time multidisciplinar, com engenheiro, especialista em TI, médico, cada um com diferentes background, talento e modo de resolver. Coloque o time dentro do hospital ou da clínica o tempo todo e em todas as áreas, para identificar problemas e processos ineficientes.
  • O design thinking entra em cena, para que a inovação seja centrada no usuário, no consumidor. Todo o processo é feito com empatia antes de definir o processo. Na saúde, quem é o usuário? Pode ser o paciente, o médico, o gestor do hospital, o governo ou a agência regulatória, o plano de saúde, a associação ou o conselho... Deve-se entender bem quem são os stakeholders. Depois, precisa identificar a pessoa importante, entre os clientes, para receber o device ou a solução. Esse exercício tem que ser feito antes, assim como entender quanto o cliente está disposto a pagar, o que já existe. “Tudo isso tem que ser feito bem e com antecipação, para entender o mercado em que quer atuar. Até agora, não se inventou nada.” Depois tem que entender a burocracia que envolve aquilo que se pretende desenvolver, incluindo testes, patentes, e também o tempo médio que leva e os investimentos necessários.
  • Só, então, começa o processo de invenção e criação.

Conheça os projetos vencedores do hackathon

Além da conferência para um público aproximado de 700 pessoas, houve um hackathon. Cerca de 400 pessoas, distribuídas por 39 equipes, disputaram a competição, propondo ideias e modelos de negócios em três vertentes: Atenção primária e telemedicina; Terceira idade e reabilitação; Saúde mental e cuidados cirúrgicos. 

Durante três dias, os times discutiram seus planos de negócio com base na metodologia do MIT. Cada uma das vertentes teve projeto selecionado em primeiro lugar, os quais receberam um prêmio de R$ 8 mil e o convite para serem incubados no Distrito InovaHC, o hub de inovação aberta do Hospital das Clínicas. 

As equipes que ficaram em segundo lugar foram premiadas com R$ 4 mil, além de menção honrosa para os que ficaram em terceiro.

Os primeiros colocados foram:

Aira – Projeto de inteligência artificial voltado a médicos, que se propõem a agilizar o tempo gasto no preenchimento de prontuários eletrônicos de forma mais eficiente. Dessa forma, o profissional pode trocar o tempo que fica no computador para aumentar a dedicação ao paciente.

Health ++ – Plataforma web com dados parametrizados para cuidados com idosos, com sistema de avisos.

Draincheck – Voltado à gastroenterologia, a solução de IoT monitora o dreno de pacientes, com sistema de alarme para casos de deiscência (abertura dos pontos de sutura) intestinal. Entre 10 a 20% das cirurgias gástricas evoluem para essa condição e 15% acabam em óbito.

Durante as apresentações, um dos projetos do Hackthon chamou a atenção da AstraZeneca, envolvida na organização do evento. A biofarmacêutica, que dedica seus esforços às doenças do pulmão, ofereceu a pré-aceleração, por quatro meses, dentro de suas salas no Hospital das Clínicas, para os idealizadores do projeto Gancho Zero, ferramenta para avaliações pré-operatórias.

Foto: Divulgação/ Hackmed- Ivan Cruz

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Autoria

Sandra Regina da Silva

Jornalista com 30 anos de experiência em cobertura de negócios e inovação.