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Desenvolvimento pessoal

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As habilidades do futuro que você não está vendo

Os dados revelam: fluência em dados, ou a educação em dados de maneira mais ampla, são habilidades-chave para as pessoas tomarem suas decisões, não só no futuro, mas já no presente. O Brasil precisa olhar mais para isso, e o modelo de educação em dados SGB pode ajudar

Colunista Fernanda Bornhausen

Fernanda Bornhausen

30 de Novembro

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Artigo As habilidades do futuro que você não está vendo

O primeiro texto que escrevo como colunista da MIT Sloan Management Review Brasil é um convite à reflexão sobre como você está tomando decisões profissionais, pessoais e em sociedade na era dos dados. Com base em dados ou em achismos?

Vou tratar especificamente de “data literacy” – em português, alfabetização de dados ou letramento em dados, ou educação em dados aumentando a abrangência. O que você acha que data literacy tem a ver com a sua empresa, sua carreira e sua vida?

Se a sua primeira resposta é que se trata de uma habilidade do futuro, que tem pouca importância para os desafios profissionais do presente, penso que vai mudar de ideia depois de ler este texto. Minha intenção é te levar a uma reflexão sobre a importância dessa habilidade na sua vida, tanto no campo profissional quanto no pessoal.

Alguns realmente consideram data literacy uma habilidade do futuro. O Learning Compass 2030 da OCDE, relatório que apresenta uma visão ambiciosa para o futuro da educação no mundo, considera data literacy uma das competências essenciais para um futuro de bem-estar individual e coletivo.

Concordo, mas eu a vejo como um conjunto de habilidades essenciais no presente também. Mais ainda: penso que precisam ser desenvolvidas com a máxima urgência por indivíduos e organizações, e de preferência incorporadas a educação formal e nas políticas públicas. Para cada indivíduo e organização, a fluência de dados terá um uso diferente, mas a incorporação de dados como uma segunda língua é uma necessidade do presente.

Eu me refiro às empresas, inclusive. O Data Literacy Project até já estabeleceu a primeira definição para “literácia de dados corporativos”: é a capacidade de uma organização de ler, analisar, utilizar para decisões, argumentar e comunicar dados em toda a organização.

Status atual nas empresas

Então, em vez de navegar no mundo dos achismos sobre o presente e o futuro, vamos ver o que nos dizem os dados sobre a demanda atual de data literacy nas empresas?

Observemos estudos recentes do Data Literacy Project, como o Data Literacy Index (realizado em dez países de cinco continentes) e o Global Data Literacy Benchmark ( realizado com 5.000 colaboradores de cinco continentes). Segundo eles, 48% dos colaboradores das empresas necessitam de apoio para ler, escrever e compreender dados. Outro ponto: 76% dos principais tomadores de decisão de negócios não confiam em suas habilidades de Data Literacy.

As empresas também já reconhecem a importância de se trabalhar com base em dados, tanto que 63% das grandes empresas planejam aumentar a alfabetização de dados de colaboradores. De acordo com a pesquisa, o aprimoramento da alfabetização de dados corporativos afeta positivamente a margem bruta, o retorno sobre os ativos, o retorno sobre o patrimônio e o retorno sobre as vendas, resultando em algo entre US$ 320 milhões e US$ 534 milhões de diferença no valor de mercado e empresas que focam e não focam em data literacy.

No entanto, os estudos mostram que existem lacunas significativas entre a importância que as empresas atribuem aos dados e as ações que realizam para apoiar a alfabetização das pessoas em dados.

No Data Democratization Report (Experian, 2020, EUA), sobre como as empresas estão trabalhando para a democratização de dados, 81% dos pesquisados responderam que está desenvolvendo ações-chave, também 81% disseram que o gap em data literacy dificulta o alcance dos objetivos-chave, 72% afirmaram que os seus colaboradores não têm ciência de que estão criando ou usando dados nas suas atividades diárias e, por fim, 50% consideram que iniciou programas de data literacy. São percentuais bem altos.

O Gartner já tinha estimado que, em 2020, 50% das organizações não teriam habilidades suficientes em inteligência de dados para obter valor comercial. E parece que ele talvez tenha subestimado o gap.

Seja como for, há um grande movimento no mundo corporativo para a que a força de trabalho se torne alfabetizada em dados nos próximos anos. Isso, seguindo as quatro competências do Data Literacy Project: ler, analisar, utilizar para decisões, argumentar e comunicar dados em toda a organização.

Mas é um grande movimento majoritariamente no mundo corporativo que fala inglês. E no Brasil?

O cenário brasileiro

Que estudos e pesquisas temos no Brasil sobre data literacy? Que conteúdos e cursos existem disponíveis e acessíveis em português?

Atualmente contamos com poucos dados sobre o estado da educação em dados no Brasil – nosso país nem foi incluído nas pesquisas e estudos citados acima. Temos também poucas ofertas acessíveis para democratizar a educação em dados para empresas, outras organizações e indivíduos.

Como idealizadora, cofundadora e presidente voluntária do Social Good Brasil, organização precursora de “tech & data for good” no Brasil, faço parte de um grupo que entende que democratizar a educação em dados em nosso País é urgente, e que é possível acelerá-la se atuarmos em rede.

Para nós a educação em dados vai além da definição do letramento em dados, pois compreende o desenvolvimento de habilidades de fluência em dados (data literacy) e de competências para ajudar na tomada de decisão orientada por dados, com ética e impacto social positivo (data for good).

Absolutamente convencidos de que, na era dos dados, precisamos tomar decisões profissionais, pessoais e em sociedade com base em dados e não em achismos, estamos trabalhando desde 2017 com metodologia própria para que organizações e indivíduos obtenham educação em dados no Brasil. Nossa metodologia ajuda a desenvolver sete competências:

  • Ler dados.
  • Trabalhar com dados.
  • Analisar dados.
  • Comunicar e argumentar com dados.
  • Tomar decisão orientada por dados.
  • Ética, proteção e privacidade de dados.
  • Promover impacto social com dados.

Durante o Festival SGB 2020, que aconteceu de 3 a 7 de novembro últimos, convidamos os brasileiros para que se juntem a nós no alcance do MTP (sigla em inglês de Propósito Transformador Massivo): Democratizar a educação em dados no Brasil e em países de língua portuguesa. Temos a convicção de que esse desafio é para uma rede forte e unida que envolva todos os setores da sociedade.

Compartilho aqui um pouco do nosso trabalho, realizado não só por nós, mas por todo um ecossistema.

data literacy tabela

Convido você a conhecer o ambiente de educação em dados SGB, as formações e mentorias em dados SGB e a pré-estreia da série Habilidados. São todos produtos e serviços que visam apoiar organizações e indivíduos na educação em dados. Nossa metodologia, devidamente testada, também é aplicada na construção de produtos de dados para ajudar a resolver problemas sociais, como a Sala de Situação Digital Data for Good Covid-19 que foi considerada pela Revista Exame como uma das 50 atitudes inovadoras que fizeram diferença na pandemia.

Nosso sonho tem piloto marcado

Sabemos que o caminho está no início e que nosso grande sonho só será alcançado quando uma grande rede de educação em dados se formar no Brasil e alcançarmos a educação pública através do ensino médio por meio da Base Nacional Curricular Comum. O movimento para isso nós já iniciamos, com parceiros, e implementaremos um piloto em 2021.

Nas próximas colunas, vou trazer casos e detalhar assuntos ligados às sete competências do modelo de educação em dados SGB, compartilhar nossas auto-avaliações para organizações e indivíduos, e te dar mais noção do deserto de dados que vivemos. Espero que essas reflexões (e esses dados) tenham sido úteis para você.

Agradeço muito pela leitura e todo feedback é super bem-vindo! Feedback é dado, afinal!

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Colunista Fernanda Bornhausen

Fernanda Bornhausen

Fernanda Bornhausen é membro do conselho de administração do Grupo Cometa e do seu comitê de inovação, vice-presidente do conselho da Acate (Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia), co-founder e diretora da consultoria Clear Inovação e conselheira da MIT Sloan Review Brasil.

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